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Beto Brant fala sobre "Cão sem dono"
















Renata D´Elia e Paula Dume

Beto Brant tem 43 anos e cinco longas. O mais recente deles é “Cão Sem Dono”, que acaba de estrear no circuito brasileiro. Esta é a primeira vez que Beto divide a direção de um longa. O seu parceiro é Renato Ciasca*, companheiro de longa data na produção cinematográfica e sócio na Drama Filmes. O roteiro do filme foi escrito por Brant, Ciasca e outro parceiro inseparável, o escritor Marçal Aquino.

Adaptado do livro “Até o Dia Em Que o Cão Morreu”, de Daniel Galera, o filme foi rodado em Porto Alegre, com produção local. Em entrevista ao Cinequanon no dia da estréia, Beto falou sobre a arte de adaptar a literatura para o cinema, os dilemas existenciais dos personagens Ciro (Júlio Andrade) e Marcela (Tainá Müller), detalhes da produção e filmagens e sobre os universos distintos que permeiam sua obra como diretor. Por exemplo, a dificuldade de trabalhar sem o improviso: “Quando a gente fala em improviso parece que é aleatório: a pura expressão do acaso, mas, na verdade, há uma preparação do ator pra chegar lá e conseguir ter a liberdade de se reinventar”.




Cinequanon: Todos os seus filmes foram adaptações da literatura para o cinema. Como funciona este processo criativo em cima de histórias já “prontas”?

Beto Brant: Nem sempre são histórias já prontas. “Os Matadores” foi um conto, em que construímos muita coisa em volta. O “Ação Entre Amigos” era um argumento. “O Invasor” era 20% de um livro. Foi uma criação conjunta, fizemos o roteiro e só depois o Marçal foi terminar o livro. Só a partir do “Crime Delicado” é que trabalhamos a partir de uma obra completa, no caso o livro do Sérgio Sant´Anna. No entanto, trata-se de um texto muito pouco narrativo, psicológico e muito subjetivo, complicado de se verter para o cinema. A gente teve que reconstruir a história. Foi o Marco Ricca que nos desafiou a fazê-lo. Aliás, acabamos de ganhar o prêmio da Academia Brasileira de Letras pela adaptação deste filme. Importante dizer que a gente não gosta de preservar a literatura no filme. Tem certas coisas que pertencem à literatura, exclusivamente.


Cinequanon: Por que acontece a não utilização do “off” ?

Beto Brant:
Nunca fazemos uso do “off” porque as palavras pertencem ao livro. O que tentamos é traduzir essas palavras em gestos e atitudes. No “Cão Sem Dono” não foi diferente. O único “off” utilizado é narrativo, um texto do escritor Sérgio Faraco lido pelo Ciro. Esse livro que aparece no filme chama-se “Lágrimas na chuva”, uma autobiografia que ele publicou há poucos anos atrás. Em 63, esse escritor foi para a Rússia, onde se deu muito mal com a doutrinação comunista. Ele acabou sendo preso e tratado como louco – até conseguir fugir e chegar, disfarçado, de volta ao Brasil, já depois do Golpe Militar. O texto que o Ciro lê trata deste regresso, de quando ele retorna à casa da mãe, trazendo com ele as almas das pessoas que ele conheceu durante essa viagem. Essa analogia acontece com o Ciro, que ao voltar para a casa dos pais, traz com ele as almas da Marcela, do Elomar, do Lárcio, da Ana e do José. Isso porque o personagem está numa dor profunda, tentando reconstruir a própria vida. Gosto muito dessa cena porque ela simboliza o recolhimento, o tempo para si mesmo, e o reencontrar-se através da leitura.


Cinequanon: Isto deve conferir mais liberdade à criação cinematográfica também, em “Cão Sem Dono”, por exemplo.

Beto Brant:
Ganhamos muita liberdade ao não usar o “off". O Galera adora o filme. Mas percebe que até o desaparecimento da Marcela, a reconstrução está muito próxima do livro. E a partir dali, não. O personagem do livro se resigna mais ao golpe que sofreu. No filme, ele quase chega ao fim de tanto desespero. É justamente a partir deste ponto que o nosso roteiro estava aberto.


Cinequanon: Daniel Galera e a namorada dele, Tainá Müller, que interpreta Marcela, trabalharam junto com vocês. Como se deu essa química? Alguém impôs limites na adaptação?

Beto Brant:
Sempre iniciamos um filme fazendo uma leitura conjunta e profunda, junto com o autor, pra sentir a vibração do cara e dos personagens. Em Porto Alegre, onde se passa a história, conhecemos a cidade e os cenários imaginados pelo Galera. Durante as filmagens, ele percebeu que os diálogos estavam muito diferentes do livro. “Opa, tá saindo outra coisa!” (risos). Mas, na verdade, ele só deu uns pitacos no roteiro logo no início, pois compreendeu que não podia interferir nas filmagens, já que se tratava de um diálogo com o livro dele. Ele sabia que iríamos recriar a história de acordo com a nossa interpretação. A participação dele foi mais emocional, devido ao vínculo com a Marcela. Assim como o Júlio, que morou nas locações, ela também saiu de casa e ficou sozinha para entrar na personagem. E o Galera estava próximo a ela o tempo todo, o que favoreceu o resultado.


Cinequanon: Por isso a escolha da Tainá para o papel?

Beto Brant:
Só depois que o Galera escreveu o livro, é que ela foi ser modelo, aos 21 anos. Ela é jornalista, fazia reportagens para a MTV, e já tinha trabalhado como assistente de direção na Casa de Cinema de Porto Alegre. Por isso a convidamos para ser nossa assistente. Ela ia nos dar a coerência da Marcela, nos ajudar a construir a personagem. Mas nos testes, ela já se mostrava muito mais apta para fazer o papel do que qualquer outra atriz. Até pela postura de como ela interferia nas entrevistas e a intimidade dela com a obra. Enfim, ela assumiu o desejo de interpretar e este é seu primeiríssimo trabalho.


Cinequanon: O naturalismo em “Cão sem dono” não permite falas roteirizadas, câmeras estáticas e servientes. No entanto, os textos criados a partir do improviso parecem não destoar do fio condutor. Há como dosar os limites entre o representado e o improvisado? Beto Brant: Nossa...não sei! O que a gente fez foi jogar muito com o texto nas três semanas que antecederam à filmagem, brincar com os personagens, pedir que o elenco propusesse possibilidades e novidade, sem querer cristalizar as falas. Na filmagem, a cada take, vinha algo diferente. Agora, quando a gente fala em improviso parece que é aleatório: a pura expressão do acaso; mas, na verdade há uma preparação do ator pra chegar lá e conseguir ter a liberdade de se reinventar. É difícil trabalhar sem isso, a não ser que o diálogo esteja muito bem escrito. No “Crime Delicado”, por exemplo, o Marco escreveu de próprio punho a maioria dos diálogos. Então, ele estava pronto pra isso, justamente pela linguagem do filme ser evocadora do teatro e do uso expressivo da palavra, da gestualidade. No “Cão Sem Dono”, o Luis Coelho, que faz o porteiro artista plástico, é um artista plástico na vida real. Tudo ali é próprio dele.


Cinequanon: Você e o Renato Ciasca são produtores associados na Drama Filmes há longa data. No entanto, esta é a primeira vez que assinam juntos a direção de um longa. Qual é o papel e o território de cada um? Beto Brant: Não existem limites. Nós começamos a faculdade de cinema juntos na FAAP há 25 anos. Nosso curta de graduação foi uma direção conjunta, chamava-se “Aurora”, adaptação de um texto do escritor argentino Mempo Giardinelli. A carreira do Ciasca se concentrou na produção, onde ele sempre se sentiu confortável, apesar de ter feito assistência de direção nos dois primeiros longas que fiz. Passamos por uma fase distante no intervalo de “Ação Entre Amigos” e “Os Matadores”, mas quando fui filmar o segundo, o chamei pra voltar a fazer cinema comigo. Assim, fundamos a Drama Filmes, na época de “O Invasor”, pra que ele pudesse produzir os filmes. Sempre fomos muito cúmplices, mas apesar de ter muito interesse em roteiro e direção, o Renato não participou dessas etapas no “Crime Delicado” por considerar o filme mais distante do universo dele. No “Cão Sem Dono”, ele se sentiu mais à vontade pra trabalhar e ficou mais próximo na construção do plano e na idéia da cena. Foi o momento certo de dividirmos a direção. Isso aconteceu com muita amizade, sem discussões. Talvez com o making-off do filme, quando sair, vocês percebam essa dinâmica do trabalho dos dois.


Cinequanon: Vocês confiaram a produção executiva de “Cão Sem Dono” a Gustavo Spolidoro, um jovem cineasta, realizador de curtas. Como vocês recrutam estes novos talentos para participar da equipe? Por que a preferência pelo novo e não pelo mais renomado?

Beto Brant:
Uma das melhores coisas de viver num país de dimensões continentais é viajar muito para fazer e divulgar os filmes. Desde 87 que eu conheço o Cláudio Assis e o Lírio Ferreira, por exemplo. Você vai formando amizades e conhecendo muita gente. Eu sabia que o Gustavo era um cara muito empreendedor, e já tinha visto curtas dele. Sabíamos que ele tinha formado uma produtora chamada Clube Silêncio lá em Porto Alegre e que estava à disposição. Ele nos ajudou a escalar a equipe e fomos nós que determinamos: não queremos os melhores e mais renomados do mercado, mas, sim, os caras mais legais, que possam colaborar e se sentir à vontade com o tema do filme. O desejo de filmar é mais importante que o renome.


Cinequanon: Diferentemente dos seus primeiros longas, em “Crime Delicado” e “Cão Sem Dono” os protagonistas são introvertidos, que estranham os próprios sentimentos. Como se deu esta passagem? E como você enxerga a relação entre estes personagens, os filmes e você mesmo?

Beto Brant:
Pra mim, o Ciro e o Antonio Martins [personagem de Marco Ricca em “Crime Delicado”] são dois intelectuais. Eles pautam a vida através da razão e da imagem. Eles entram em colapso quando um golpe os faz encarar as emoções. É essa coisa do personagem que toma pra si uma dor coletiva, que é da humanidade. Tanto Ciro como Antonio entram numa náusea sem fim. Essa dor pertence aos dois protagonistas e um pouco a mim, depois de três filmes num universo de violência, principalmente como o do “O Invasor”. Depois disso é que eu olhei mais pra dentro e percebi que havia uma perspectiva muito cética minha com relação à humanidade. O “Crime Delicado” foi uma experiência muito intensa pra todos que estavam envolvidos, uma tremenda epifania. Hoje eu tenho o filme completamente incorporado em mim. Sou um pouco Antonio Martins e um pouco Ciro, e me relaciono com o mundo assumidamente através desses espelhos que são o cinema e a literatura.


Cinequanon: Todos os seus filmes começam e terminam com reticências. O clímax deixa o espectador suspenso em silêncios e ruídos. Por que dessa escolha? Podemos dizer que há aí certa influência do cinema contemporâneo latino?

Beto Brant:
Não tem influência dos latinos não. A gente opta pelas reticências desde o nosso primeiro filme. Em “O Invasor”, eu adoro ver aquela menina dormindo enquanto acontece aquela coisa nefasta na casa dela. Aquilo é uma opção dela em não tomar consciência da situação em que vive. Em “Crime Delicado”, a menina põe aquela perna ali por se perceber prisioneira do ateliê e da tela. Com a perna ela se liberta. Em “Cão Sem Dono”, Barcelona não é um lugar físico. Ela já sabe que está doente quando decide ir pra lá, mas aquele lugar é um desejo, um estado de espírito. Acho que naquele momento ela decide se aventurar e convida o Ciro a fazer esta aventura, este destino, junto dela. É legal estabelecer um diálogo, fazer com que o dilema do personagem instigue um comentário no expectador.


Cinequanon: Você já afirmou não gostar de filmes óbvios. Mas o que é um filme óbvio, para você? O que faz um filme cair no senso comum?

Beto Brant:
Eu disse isso? Esse não é o tipo de coisa que eu digo... O que transforma o filme em algo óbvio e o deixa no senso comum é a ambição do autor e o que ele quer com isso.


* Renato Ciasca não participou da entrevista porque estava em viagem