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Próximo da estreia de "Os Famosos e os Duendes da Morte", primeiro longa de Esmir Filho.















Por Gabriel Carneiro


Quando Tapa na Pantera (2003) caiu na rede em 2006 e virou fenômeno de acessos, não se imaginava o futuro que o cineasta Esmir Filho iria ter. Na época, ele já havia realizado alguns curtas-metragens, como Ato II Cena 5 (2004) e Ímpar Par (2005), e estava lançando seu filme Alguma Coisa Assim (2006), também um curta, no Festival de Cannes, no qual ganhou o prêmio de melhor roteiro.

Formado em cinema na FAAP, em 2004, Esmir ainda faria outro curta-metragem de repercussão, Saliva (2007), exibido em Cannes. Em Berlim, encontrou os co-produtores para seu primeiro longa-metragem, Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), baseado em livro de Ismael Canappele. Frédéric Corvez, da produtora francesa UMEDIA, interessou-se no projeto. Logo depois conseguiu a parceria com a Warner Bros., e o filme ganhou projeção no meio cinematográfico. A primeira exibição pública foi no Festival de Locarno (Suíça). Posteriormente, ganhou o prêmio de melhor filme no Festival do Rio 2009, além do prêmio de melhor direção no festival de Valdívia (Chile), e mais recentemente, ainda, já em 2010, o prêmio de melhor filme no Festival de Punta del Leste.

Em entrevista para o Cinequanon, Esmir Filho conta sua trajetória cinematográfica e como foi realizar seu primeiro longa-metragem.




O que te levou a fazer cinema?

Desde a época de colégio gosto muito de escrever histórias, e comecei a criar um encanto por contá- las: foi quando comecei a ter contato com filmes de arte - aos dezesseis anos. Tem um filme que me marcou muito, “Noites de Cabiria”, do (Federico) Fellini, visto em VHS. Principalmente por causa da cena final, aquela sugestão (da Giuletta Masina) sorrindo e chorando, com meninos feito anjos. Eu falava: ‘Que quer dizer isso?’. Fiquei louco com o poder da imagem; eu não sabia explicar a imagem, mas a sentia. Essa foi a minha primeira relação com o poder de sugestão dela (a imagem) - que é saber como transformar as minhas frases em imagens, e permitir que elas dêem mais poder ao leitor do que uma simples explicação. Eu estudava no (Colégio) São Luis e comecei a freqüentar bastante os cinemas da região da Avenida Paulista. Ainda bem! Comecei a ver que existiam esses filmes, na época, diferentes. Já fazia oficina de interpretação, aula de teatro, e gostava muito do trabalho do ator. Resolvi que queria dirigir, atores principalmente, e comecei na FAAP. Estudava à noite, e logo comecei a trabalhar em uma produtora, a Academia de Filmes.

Você já sabia que tipo de filme você queria fazer quando entrou na FAAP?

Não, não. É um processo. Até hoje. Meu primeiro filme, Ato II Cena 5, que fiz na FAAP, fala sobre teatro, sobre ser e não ser. O Ímpar Par, que foi o seguinte, é uma fábula super leve que fala sobre amores e sapatos. Foi nele que eu comecei a entender um pouco que gosto de sutilezas, de sugestões, de histórias simples. Me apaixonei por isso, e por filmar histórias simples. Através de imagens, qual é a profundidade do personagem, ou quais as questões do filme? Você não precisa de um roteiro complicado. Era uma história humana que eu precisava. E o Ímpar Par foi o primeiro em que comecei a ver isso. O Alguma Coisa Assim, que foi o curta posterior, já falava do universo adolescente. Saliva era da infância para a adolescência e Os Famosos e os Duendes da Morte já era sobre a adolescência. Foi o momento em que mergulhei: os do rito de passagem. Olhando para trás, vejo muito quem eu era em cada filme que fiz. Mesmo que, hoje, eu não fizesse o Ímpar Par, consigo ver o Esmir que fez naquela época, que era uma visão mais romântica, mais “naïfy”. Em Alguma Coisa Assim, já tinha uma cutucada, um incômodo. Saliva, já é um mergulho sensorial. Os Famosos... vem muito do Saliva.

Como surgiu sua parceria com a “Ioiô Filmes”?

A Ioiô foi a primeira a me dar a mão. Ainda estava na faculdade, tinha acabado de fazer , e eles foram ver uma sessão. O Rafael Gomes, que também entrou na “Ioiô”, já tinha feito vários trabalhos comigo, como o Ato II Cena 5 – inclusive, já tínhamos gravado o Tapa na Pantera, mas não tinha caído na internet. A “Ioiô” viu meu portfólio, meus projetos, e vieram falar comigo: “temos uma produtora de publicidade, estamos interessados em fazer um curta de audiovisual, e queríamos muito que você pudesse escrever seus projetos e ao mesmo tempo, fazer alguma coisa de publicidade, se você tiver interesse”. Os meus outros dois curtas (Alguma Coisa Assim e Saliva) eu fiz com eles.

Tapa na Pantera foi feito pensado para internet?

Não. Tudo que é pensado para internet é difícil. A internet é algo muito espontâneo. Lá é o publico que escolhe. É muito difícil, então, ter essa pretensão de achar que vai dar certo na internet. Óbvio que têm alguns temas, como coisas de humor... Chamo Tapa na Pantera de fenômeno cultural espontâneo. Foi uma criação coletiva, junto com a Maria Alice Vergueiro (atriz do filme). Não tinha nenhum roteiro. O que aconteceu com o filme foi: havíamos feito esse filme, a gente ria, mostrava para os amigos e os amigos gostaram e falaram, “você tem que passar isso”. Aí eu, o Rafael (Gomes) e a Mariana (Bastos), que éramos os diretores, resolvemos mandar para os festivais. Nisso, alguém colocou no “Youtube”, numa época em que o youtube nem era popular. De repente o vídeo se espalhou: foi pirateado praticamente. E essa foi a minha primeira sensação: como assim? Esse vídeo é nosso, o que as pessoas estão fazendo? Na internet, nada é de ninguém. Você jogou virou notícia. O filme é óbvio, ele tem uma brincadeira espirituosa, mas o que aconteceu em forma de disseminação é incrível - talvez seja um dos curtas-metragens mais visto no Brasil e o grande feitor de tudo isso é a internet. A gente não fazia marketing, não mandava para as pessoas.

Você gosta do filme?

Gosto. Gosto... gosto muito até.

Mas você não tem medo de ficar marcado como o cara que fez Tapa na Pantera?

Ah (risos), já me acostumei na verdade. O mais importante, para mim, é que o filme me facilitou mostrar outros trabalhos meus. Quem não conhece meu trabalho, talvez pense isso. Mas quem me conhece, sabe que faço curtas desde antes. Desde que eu continue filmando, pra mim, tá tudo certo. (risos).

A partir do Alguma Coisa Assim, você passou a fazer filmes muito mais juvenis, criando um universo muito mais preocupado com a juventude. Por que essa escolha?

Não sei. Foi através do Alguma Coisa Assim que comecei a me encantar com o universo jovem. É dolorido ser adolescente, porque você não sabe o que é certo, o que é errado; você não sabe quem inventou isso; você chora muito quando está triste, você ri muito, gargalha, quando está feliz, sem nenhum motivo. Você quer viver tudo num dia só, amanhã parece que não existe: é muito intenso ser adolescente. E eu adoro essa coisa do adolescente... Hoje, você olha pra trás e fala, “a minha primeira namoradinha...”, mas naquele momento era muito importante pra você, era a única coisa em que você pensava, você não dava importância para o resto. Eu adoro o egoísmo do adolescente nesse aspecto, porque primeiro ele está querendo se conhecer para depois falar com o mundo. E é por isso que meus filmes são tão internos. Se você tá tentando se conhecer, o que passa na sua cabeça? O que passava na minha? O que passa na cabeça do adolescente, quais são as questões dele hoje? Me encanta esse rito de passagem, porque crescer é inevitável.

Como você desenvolve seus roteiros? Isso vem de suas lembranças ou você conversa com adolescentes?

Tem muito de mim, mas também tem muito da pesquisa de cada filme. Em Saliva é a história do primeiro beijo, que é muito próximo ao que aconteceu comigo: mas o universo é totalmente diferente. Procurei conversar com as crianças. Acabo misturando experiências pessoais, mas na verdade não são experiências pessoais - tá errado isso -: é o meu modo de olhar.

Você acha que o cinema brasileiro é carente do cinema juvenil?

Sim! Isso é claro. Porque o máximo de filmes de adolescente que vi e gostei são do Jorge Furtado. Mas ele é mais carente de sensibilidade, de sutileza. O cinema brasileiro procurou, muitas vezes o choque, muitas vezes a violência. Não estou condenando, mas acho que o cinema é carente de sensibilidade e sutileza, e delicadeza, e é isso que eu venho propondo e procurando nos meus filmes. Vou falar de maconha, de suicídio, mas a sutileza e delicadeza são importantes, porque é o meu olhar em relação a isso.

Existe um mercado bem grande de jovens e adolescentes que freqüentam o cinema, mas não há filmes nacionais voltados a esse público. Seus filmes vêm suprir essa lacuna?

Eu acho. Devem conversar com os adolescentes, mas não acho que a questão é essa. É para jovem: é filme de jovem para jovens e mais adultos que tenham sensibilidade, ou que acreditem nesse tipo de olhar, nesse tipo de sensibilidade. É difícil pensar num tipo de público que nunca teve um tipo de filme feito para eles, então você nem sabe o que vai levá-los ao cinema. De repente, eles não vão querer saber. Eu acho que o adolescente precisa se ver na tela, a intenção é essa também. O fato de estar faltando no mercado pode fazer com que o filme tenha uma chance, mas não é por causa disso que o fiz. Quando eu era adolescente, não vi nada sobre isso - e adoraria ter visto.

Você precisa falar de cultura pop, de tecnologia, para falar da adolescência hoje, no século XXI?

Sim, acho que está inerente. O adolescente ouve músicas em inglês, o adolescente fala na Internet: digo isso por causa dos meninos ali do Sul, que nunca tiveram aula de inglês e falavam, e conseguiam se comunicar porque era universo da Internet. Eles nasceram com a Internet. Eu ainda passei pela transição, mas os adolescentes com dez anos a menos que eu, com seis anos, já tinham Internet. Já faz parte da época deles. As realidades sociais são muito diferentes: é difícil generalizar como um filme para o Brasil, já que não existe uma cultura brasileira - existe a cultura do Nordeste, a do Sul... O tipo de adolescente que conheço está muito ligado à cultura da Intenet, à cultura pop e tecnológica. Tá todo mundo ouvindo música no celular, no Ipod, no MP3. Adolescente e música para mim são muito próximos. A gente quer ouvir uma música quando sai na rua porque a gente quer que a vivência seja diferente.

Seu trabalho tem conseguido bastante prestígio em festivais e no meio crítico, desde o Alguma Coisa Assim, que foi premiado em Cannes. Você atribui isso a quê? É como faz cinema para jovens?

Sim, por causa do olhar que estou. Pode ser que daqui a dez anos eu perceba que isso é um processo. Sempre falo para os meninos que fazem cinema - vou a várias faculdades porque acho muito legal conversar com os alunos -: exercite seu olhar; e é isso o que estou fazendo, exercitando o meu olhar. Porque qualquer história já foi feita no mundo. O que difere uma história da outra é o modo como você vê. O que vai diferenciar você no cinema é o modo como você vai olhar para a situação. Eu faço cinema para poder me entender. Entender ou tentar colocar meu ponto de vista sobre o mundo, qual o meu ponto de vista sobre cada situação, mesmo que simples.

Você acha que esse mesmo olhar cabe para uma temática mais adulta?

Sim, é o que estou exercitando. Acho que é esse o meu desafio: como é isso na terceira idade, como é isso agora, nessa fase dos 20 aos 30? Acho que antes me encantava com o mundo do adolescente pelo deslumbre, pela coisa ao mesmo tempo pessimista e apocalíptica, sabe? Tem algumas coisas assim, principalmente n’Os Famosos e os Duendes da Morte.

Como foi ir pra Cannes?

Eu tinha um contato para mandar. Estava atrasado, já tinha passado o prazo. Falei com esse contato, e ele disse para mandar o Alguma Coisa Assim. E entrou. Não acreditei, porque foi muito de surpresa. Ainda ganhou prêmio, de roteiro, e o presidente do júri era o Guillermo Arriaga. Fiquei super feliz, foi um deslumbre, vi todos aqueles filmes com os diretores na sala. A segunda vez, quando fui por conta do Saliva, já foi diferente, porque era um outro universo, um universo de mercado, eu já estava lá com o meu primeiro longa pra começar a ser vendido. Você já entra num lugar com vários stands, vários corredores. É uma coisa engraçada. Existe toda uma coisa engraçada do glamour, das fotos, mas o interessante é a qualidade do cinema. Eles levam o cinema muito a sério e são muito espirituosos com os diretores, é muito legal, não são nada nariz empinado.

Foi lá que você conseguiu vender Os Famosos?

Foi no Festival de Berlim, porque lá ele foi selecionado pelo projeto como “Co-production Market”, o mercado de co-produção. Fomos um dos 25 projetos selecionados no mundo, o único da América Latina. A gente forma uma mesa e vêm os produtores europeus, que estão interessados em nosso filme, marcar horário para conversarmos. Lá foi uma pessoa que eu já conhecia de Kiev, do Festival da Ucrânia, o Frédéric Corvez, que me conheceu através dos meus curtas. Por isso que eu falo pra todo mundo que o processo de curtas é importante. Além de ser um exercício pro seu olhar, é quando você começa a mostrar o seu trabalho nos festivais.

Como a “Warner” entrou no processo?

Entrei primeiro com a Sara Silveira (da Dezenove Som e Imagem). A gente queria fazer um projeto, a “Warner” estava interessada em trabalhar com a Sara e, ao mesmo tempo, estava interessada nos meus projetos. Propus,ao Zé Carlos, da Warner, esse filme adolescente. A proposta inicial era muito em cima do livro do Ismael (Canappele). Foi um processo intenso de como o livro virou filme e o filme virou livro. A “Warner” entrou no meio do roteiro e foi uma coisa linda, porque eles me pagaram e me deram tempo para escrever o roteiro. Isso é uma coisa que não existe, que é difícil ter no Brasil, principalmente no primeiro longa.

Como foi o processo pra fazer um longa metragem?

Foi muito intenso. Eu achava que tinha feito uma coisa diferente, mas hoje estou percebendo que fiz como sei fazer. Mergulhei no roteiro, fui até a cidade do livro, li o livro do Ismael, achei incrível, tive um sentimento de leitor que quis passar. Não quero adaptar frase a frase, usar narração em off; não é isso, quero passar aquele sentimento, que era muito subjetivo. O livro é praticamente o “blog” do menino do filme, tudo o que o menino sente sobre todas as coisas da cidade, e isso me marcou de forma intensa. Fui até lá e senti que o lugar tinha uma magia, um tipo de misticismo, uma coisa meio hermética. Fui conhecendo as pessoas, o Nelo Johan, que fazia as músicas no computador, a Tuane, que eu conheci na Internet, a menina das fotos, feitas todas no quintal da casa dela. Comecei a conhecer o universo desses jovens, que têm um modo de ver o mundo e têm a Internet como janela. Foi a Internet que estimulou a Tuane a continuar tirando fotos: e o Nelo também coloca as músicas na Internet, para que as pessoas ouçam e façam download. Se não fosse isso, não estariam sendo vistos. Isso, pra mim, foi muito intenso, em uma cidadezinha pequena, onde morei por 3 meses, e fiquei escrevendo. Foram 9 meses, no total, de confecção do roteiro, junto com o Ismael, porque eu precisava muito da ajuda dele, por causa da vivência dele ali. Ele já tinha o primeiro livro, que é o “Música para quando as luzes se apagam”, que é super legal. A gente ficava discutindo o roteiro, discutindo o sentimento das personagens, e o Ismael ia esmiuçando o livro, ia detalhando mais a história. Procurar na Internet foi primeiro ouvir o que esses adolescentes queriam dizer, como eles queriam ser vistos pelo mundo, como era o ‘eu’ deles virtual, para depois descobrir o ‘eu’ deles real. Eu não pesquisava pelo “Orkut”: era por “Flicker”, “Fotolog”, “Blog”, pelas idéias que eles tinham pra dividir. Me interessava fazer isso na região, porque é muito forte no livro o sentimento regional, a coisa da tradição alemão, a coisa de estar muito ligado à sua raiz, querer partir, querer ficar, morar numa cidade pequena mas ter a Internet, saber que o mundo está lá fora, e acessá-lo.

Como você conheceu o Ismael Canappele?

Já tinha conhecido o primeiro livro. Li, gostei muito, e tinha a ver com uma coisa de adolescente que me interessava. Quando estava escrevendo o segundo livro, “Os Famosos e os Duendes da Morte”, ele me mostrou, e achei muito melhor que o outro – melhor pra mim, porque tinha a ver com o eu queria dizer. No livro, enquanto o menino fala dos sentimentos dele, tem os links da menina – que realmente existem, se você digitá-los na internet, verá que são os vídeos da menina que aparecem no filme. Você pode ver os vídeos dela, pode ouvir as músicas. Convidei o Ismael pra atuar no filme porque no livro era muito estranho o encontro do garoto com o cara que vinha da cidade - o que na verdade tinha um simbolismo de como seria se encontrasse o eu mais velho -, e falei que ele tinha que encontrar ele mesmo lá atrás, de alguma forma. Virou uma rede.

Qual a diferença entre fazer um longa e um curta?

Acho que a diferença é de tempo, de energia e de dedicação. O tempo é fundamental. Eu mergulho nos curtas também, mas a coisa é tão rápida. Já, para o longa não: você tem bastante tempo. Tive nove meses para me envolver no roteiro. O meu envolvimento foi maior, o meu desgaste foi maior, a minha concentração de energia foi maior. Também envolve muito mais gente, e tem a preocupação da bilheteria. O curta é pequeno, você arruma tudo ali, você vai passar nos festivais - eu mesmo mandava pros festivais. Agora tem que passar pela produtora, e tem pessoas com quem eu tenho que conversar sobre o que eu penso do projeto, sobre meu olhar.

Quando você fez o filme, você o fez pensando no mercado?

Não, eu nunca faço isso. Eu faço pensando no coração. Vem de dentro pra fora, porque senão estaria muito preocupado com o fato das pessoas irem ver o filme, enquanto, na verdade, estou interessado em conversar. Porque quem ver o filme, gostar e tiver interesse, vai vir conversar comigo, e é assim que a gente faz amigos. Não me importa a quantidade, importa a qualidade das pessoas que vão vir.

Você não acha que o mercado é importante pra você continuar filmando?

Pode ser, em aspectos: para os produtores. Mas se conseguir atingir pessoas de forma sincera, talvez ganhe muito mais do que pensando em falar o que querem ouvir, até porque tem muita gente que se ferra pensando assim. Tenho curiosidade de saber, mas nunca vou me preocupar com isso.

Você acha que o filme irá bem de bilheteria?

Eu acho, eu acho. Eu não conheço, na verdade. Com curtas, você faz e passa no festival: e você vê a sala lotada. Com o longa estou tendo essa impressão também. Eu passei em Locarno, no Rio, na Mostra. Todo mundo está me dizendo que a coisa é em março (NR: o filme estreará oficialmente no dia 2 de abril), e não sei o que começa em março, sei é o que estou vivendo até agora.

Como foi em Locarno?

É um festival muito interessante, muito cheio de propostas. Ele ocorre no verão, tem exibições em praça aberta. Para primeira exibição d’Os Famosos, tinha 3500 pessoas. Nunca vi uma sala tão grande, que comportasse 3500 pessoas de uma vez só.

Qual o papel você acha que a vitória no Festival do Rio teve na sua carreira e na carreira do filme?

Prêmios são muito bons para deixar as pessoas mais curiosas. Tudo que for ajudar a mais pessoas irem ver o filme - gostando ou não -, para mim tá valendo. E ainda competi com diretores que admiro, como o Beto Brant, o Marcelo Gomes... E ganhou, como melhor filme, o meu filme, foi muito especial.

E o Festival de Valdívia?

No dia em que mostrei o filme, estava lotado de jovens. Foi impressionante como eles gostaram: acho que porque o Sul do Brasil tem muita ligação com aquela região do Chile, da Argentina e do Uruguai. Eu nem estava lá quando recebi o prêmio - foi a primeira vez que recebi um grande prêmio internacional não estando lá -: vi pela internet, em casa, antes de dormir - nossa, ganhei o de melhor diretor.

Qual é o próximo projeto?

Está em processo inicial, deve se chamar A Baleia. Quero abordar o ser humano, ir um pouco além da adolescência, utilizando o onírico e símbolos.


Gabriel Carneiro é jornalista e colaborador do Cinequanon. Edita, também, a revista da internet, "Zingu!".