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O surto de horror da Boca do Lixo: terrir ou humor involuntário?











Laura Cànepa

A historiografia do cinema brasileiro ainda carece de pesquisas em várias frentes. Uma delas, bem recente historicamente, mas por muito tempo ignorada em seus detalhes, é a produção da Boca do Lixo paulistana dos anos 1970 e do começo dos anos 1980, especialmente no que se refere a alguns subgêneros do filme erótico. Este artigo pretende resgatar produções da Boca do Lixo que trabalharam com o universo do horror, examinando seus aspectos específicos e procurando desvinculá-las do que ficou conhecido como o terrir carioca, capitaneado pelo cineasta Ivan Cardoso na mesma época.

Pequena história do cinema de horror brasileiro

Diferentemente do que se deu em outros países nos quais o cinema fantástico em geral e o cinema de horror em particular estiveram presentes desde as primeiras experiências cinematográficas, no Brasil, a despeito de nossa cultura tão atenta ao sobrenatural, não foi desenvolvida uma tradição nesse gênero. Embora muitas histórias contadas pelo cinema brasileiro contenham elementos que não podem ser explicados pela natureza tal qual conhecemos, geralmente, o inexplicável e o sobrenatural se apresentam sob a forma do surrealismo e do realismo fantástico, e não sob a forma do horror mais clássico ligado à literatura gótica e fantástica européia dos séculos 18 e 19. No entanto, quando nos aproximamos mais atentamente de nossa cinematografia, podemos nos surpreender com uma quantidade significativa de filmes tipicamente de horror (1), a maioria deles surgidos a partir da década de 1960.

Apesar de alguns “flertes” com o universo de horror na década de 1950 (como em Meu Destino é Pecar, de Manuel Pelluffo, por exemplo), considera-se que o gênero estreou no cinema brasileiro em 1963, com À Meia-Noite Levarei Sua Alma, realizado em São Paulo pelo jovem José Mojica Marins. O filme contava a história de um coveiro que desejava ter o filho perfeito e, para isso, cometia uma série de crimes, atraindo a ira das almas do outro mundo. Mesmo com o desprezo e indignação da maior parte da crítica, À Meia Noite Levarei Sua Alma,um exemplo impressionante de cinema barato e experimental, foi um grande sucesso nas bilheterias, atraindo a atenção de produtores e cineastas ligados tanto ao cinema popular quanto ao cinema de vanguarda (2). O resultado foi o surgimento de uma figura de destaque no cinema nacional, o Zé do Caixão (encarnado pelo próprio diretor), que deu origem a uma série de produtos televisivos, cinematográficos, radiofônicos e impressos, inicialmente incentivados por produtores e empresários da área (3).

A partir da popularidade de Zé do Caixão, começaram a surgir, lentamente, algumas tentativas de se produzir cinema de horror no Brasil. Um dos pioneiros nesse sentido foi o produtor/diretor paulista Raphaele Rossi, que realizou, em 1966, o drama O Homem Lobo, história de lobisomem que estrearia nos cinemas apenas em 1971, sem repercussão. Em 1968, Antônio Pólo Galante também investiu no gênero, com o filme em episódios Trilogia do Terror, que contou com a colaboração de Ozualdo Candeias, Luiz Sérgio Person e José Mojica Marins. No Rio de Janeiro, Adolpho Chadler faria incursões pelo horror (com uma proposta mais bem-humorada) nos filmes Incrível, Fantástico, Extraordinário (1967) e O Impossível Acontece (1969).

Ao longo da década seguinte, produtores do Rio de Janeiro e de São Paulo continuaram explorando a temática do horror em diversos filmes, e isso se refletiu até mesmo na obra de diretores como Reginaldo Farias (Quem Tem Medo do Lobisomem?, 1974), Walter Hugo Khouri (O Anjo da Noite, 1974; Filhas do Fogo, 1978) e Carlos Hugo Christersen (A Mulher do Desejo, 1975; Enigma para Demônios, 1978).

Mas foi na Boca do Lixo paulistana que o gênero floresceu com mais intensidade: entre 1976 e 1983, foram produzidos lá mais de 20 filmes de horror. Realizados por diretores/produtores como Fauzi Mansur, David Cardoso, Dorival Coutinho, Luiz Castelini, Antonio Meliande, Rafaelle Rossi, John Doo, Jean Garret e o próprio José Mojica Marins, esses filmes tinham em comum o uso dos clichês da pornochanchada (sexo, nudez, machismo) e do horror (violência, sangue, fenômenos sobrenaturais). Embora tenham conquistado sucesso entre o público, tais obras, hoje esquecidas, representam um conjunto relativamente homogêneo em termos temáticos e estéticos, e há muito tempo merecem uma revisão.

A questão do humor

Enquanto produtores e diretores paulistas tentavam realizar filmes de horror que seguiam, à sua maneira, os moldes de grandes sucessos internacionais do gênero (em particular O Bebê de Rosemary, de 1968, e O Exorcista, de 1973), no Rio de Janeiro, o cineasta Ivan Cardoso, ligado ao movimento tropicalista e ao cinema experimental, trabalhava o tema do horror em outras frentes.

Tomando como referências os monstros clássicos do cinema (como Drácula e a Múmia) e os filmes B de ficção-científica da década de 1950, tornou-se uma figura de destaque no meio cultural carioca ao realizar pequenas “chanchadas” de horror em Super 8 (as Quotidianas Kodaks), estreladas por amigos como Torquato Neto e as “Ivamps” (belas amigas da Zona Sul carioca, geralmente com pouquíssima roupa). O estilo de seus filmes, totalmente anárquicos e em permanente diálogo com o cinema de gênero e com as histórias em quadrinhos, foi apelidado de terrir, título que o diretor repete com orgulho até os dias de hoje. O fato de trabalhar tão próximo à cultura pop e ao cinema comercial deu também a Ivan Cardoso a chance de dirigir dois longas-metragens em 35mm que tiveram enorme sucesso nas bilheterias brasileiras e reconhecimento em festivais internacionais (como o de Cannes): as comédias escrachadas O Segredo da Múmia (1982) e As Sete Vampiras(1987). Ambas tiveram o auxílio, no roteiro, de Rubens Francisco Luchetti, escritor e roteirista de quadrinhos que fôra um importante parceiro de Jose Mojica Marins uma década antes.

Mesmo com essa brevíssima análise do terrir de Ivan Cardoso e do cinema de horror da Boca, já é possível perceber que, embora compartilhem dois elementos importantes (o horror e o erotismo), o tipo de cinema proposto pelo cineasta carioca é bem diferente daquele levado às telas pelos produtores paulistas. Então, parece curioso o fato de que, atualmente, filmes de horror eróticos paulistas e cariocas realizados na década de 1970 pelos mais diferentes diretores, tenham recebido o rótulo genérico de terrir, dado por cinéfilos e estudiosos que ainda se interessam pelas obras.

O que desejo mostrar neste artigo é que, apesar de as pornochanchadas paulistas de horror levarem o espectador de hoje freqüentemente ao riso, em sua época, elas foram executadas, divulgadas e recebidas como dramas. A pergunta inevitável é: por que filmes violentos, adultos e supostamente sérios soam às vezes tão ridículos para a audiência atual, que os vê como exemplos de terrir? Creio que, além da desinformação generalizada a respeito do tema, há mais dois motivos para isso: o primeiro é cultural, o segundo é cinematográfico.

O que chamo de motivo cultural é derivado do preconceito com relação à ficção horrorífica brasileira, especialmente entre o público que tem acesso à “alta-cultura” (curiosamente, este mesmo público é bastante aberto a obras estrangeiras do mesmo gênero). Assim, freqüentemente, ri-se com desprezo ao ouvir-se apenas o argumento das histórias de horror brasileiras, que pouco diferem das estrangeiras. Por exemplo, no caso de Seduzidas pelo Demônio(Raphaelle Rossi, 1977), temos um rapaz que, por ter participado de uma cerimônia satânica quando nasceu, encarna um espírito demoníaco e assassino. Trata-se de um plotcomum de filmes de horror; no entanto, ao imaginarmos um filme brasileiro com essa premissa, nossa primeira reação é duvidar de sua qualidade e da seriedade de sua proposta.

A recepção dos filmes de horror da Boca também esbarra em outro preconceito: em vários momentos, percebe-se a pouca escolaridade dos profissionais envolvidos (inclusive roteiristas), o que pode acabar com a verossimilhança de algumas cenas. Isso fica evidente, mais uma vez, em Seduzidas pelo Demônio: as seqüências que se passam no tribunal do júri têm equívocos primários, como a troca de réu durante o julgamento, que minam qualquer possibilidade de que uma audiência bem informada leve a história a sério.

No entanto, o motivo que chamo de cinematográfico é ainda mais importante para compreendermos o lapso entre as intenções dos realizadores e a reação do público. Uma pista neste sentido é apresentada por Noel Carroll, autor de A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração (2001). Nesse livro, Carroll analisa a recepção dos filmes de horror a partir da experiência cognitiva do espectador. Para ele, o efeito horroríficodepende de nossa crença em que os personagens estejam se sentindo, de fato, ameaçados pelo fenômeno ao qual estão expostos. E ele continua: as comédias de horror seriam aquelas em que há uma discrepância entre a ameaça e a reação dos personagens. Se eles têm medo demais ou de menos, o efeito provocado é o riso. Aí está, talvez, a chave para as comédias involuntárias do gênero: elas ocorrem quando o horror é tão pouco convincente que não nos parece que os personagens possam acreditar nele e/ou quando a reação dos personagens não é coerente com a ameaça.

Isso nos leva a problemas de roteiro, de mise’en’scene, de sonoplastia, de interpretação etc. Sabendo da precariedade com que os filmes da Boca eram produzidos, fica mais fácil entender porque alguns simplesmente não funcionam. Um bom exemplo é o enxerto de voz que o produtor Cláudio Cunha operou no filme A Reencarnação do Sexo(1981), de Luiz Castelini. O filme trata de uma casa assombrada por um casal de fantasmas que vinga sua tragédia levando os novos moradores a farras de sexo e morte. O que inicialmente seria sugerido numa atmosfera de tensão e silêncio foi revelado através de uma voz overque comanda os atos dos personagens com ordens do tipo “você precisa de sexo”, “agora você tem que matar” etc. Excessivamente declamadas e artificiais, as falas alteram a tal ponto a atmosfera pretendida que o efeito final é humorístico.

Já no filme Belas e Corrompidas(1976), uma farsa roteirizada por Marcus Rey e dirigida por Fauzi Mansur, a precariedade dos efeitos necessariamente nos leva a duvidar das cenas. O exemplo mais notório acontece quando um convidado da dona da casa (uma serial-killerdisfarçada de dama da alta sociedade) é atacado por morcegos. Ao vermos os animais pendurados em cordas e sem mexer as asas, e ao observarmos a correria do ator Heitor Gaiotti pelo cenário, acabamos nos distanciando do efeito de susto desejado.

Outro motivo para o riso nos filmes de horror é o apelo ao grotesco, nem sempre bem construído. Nas imagens grotescas, é comum a figura do rebaixamento, com referências freqüentes à animalidade, às partes baixas do corpo, às fezes e dejetos, suscitando reações de repulsa e, em muitos casos, de riso. Quando uma cena grotesca em um filme de horror carece da tensão adequada, pode se tornar e excessiva e provocar grande impressão, mas não necessariamente o medo - fundamental nesse tipo de história. São muitos os exemplos dessa situação nos filmes citados, provocados tanto pela precariedade dos efeitos de maquiagem quanto pela crueza da fotografia, transformando o que poderia ser uma situação bizarra num espetáculo puramente escatológico.

Apesar dessas observações, é preciso admitir-se que a experiência do cinema de horror na Boca teve duas grandes conquistas: (1) a de desenvolver um subgênero consistente do cinema erótico brasileiro e (2) a de retratar um repertorio de horror nacional.

A primeira conquista se deve ao fato de os filmes operarem uma combinação coerente de elementos cinema erótico e do cinema de horror, o que se percebe nos argumentos de filmes como O Castelo das Taras(Julius Belvedere, 1982), em que o espírito do Marquês de Sade encarna em um pastor protestante numa cidade do interior; Lílian – A Suja(Antonio Meliande, 1981), em que uma prostituta é dominada por um espírito assassino; entre muitos outros.

A segunda conquista desses filmes é a interseção entre o repertório de horror “importado” e nacional. Abrindo mão de vampiros e mutantes (que aparecem apenas nas comédias de Ivan Cardoso), os filmes da Boca usam como fonte de horror aspectos que aparecem na ficção de horror estrangeira, mas também dizem respeito a crenças e medos típicos das várias manifestações religiosas brasileiras: a assombração e a possessão por demônios e maus espíritos. Isso, aliás, pode ser generalizado para a maioria das obras cinematográficas nacionais vinculadas ao universo do horror, o que pode sugerir que os filmes realizados na Boca, de certa maneira, pertençam a uma tradição (ainda que marginalizada) desse gênero de ficção no Brasil.


OBSERVAÇÃO: Artigo originalmente publicado em: CANEPA, Laura. “O surto de horror da Boca do Lixo: terrir ou humor involuntário?”. In: LYRA, B; MONZANI, J. (orgs). Olhar: Cinema. São Carlos: Pedro & João Editores/UFSCar, 2006, p. 161 a 167.

NOTAS -

(1) Entende-se aqui o horror como um gênero que trata de situações igualmente violentas e sobrenaturais, encaradas pelos personagens da história como alterações inexplicáveis da Natureza.

(2)Glauber Rocha e Luiz Sérgio Person, por exemplo, eram admiradores confessos do trabalho de Mojica.

(3)Isso mudaria a partir da década de 1970, quando os conflitos com a censura e as más escolhas profissionais provocaram a decadência precoce da carreira de José Mojica Marins.

BIBLIOGRAFIA:

ABREU, Nuno César de. O Olhar Pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo. São Paulo: Mercado das Letras, 1996.

BARCINSKI, André; FINOTTI. Ivan. Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.

CARDOSO, Ivan; LUCHETTI, Rubens Francisco. Ivampirismo: O Cinema em Pânico. Rio de Janeiro: Editora Brasil-América - Fundação do Cinema Brasileiro, 1990.

CARROLL, Nöel. A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração. Campinas: Papirus, 1999.

CAUSO, Roberto de Sousa. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil (1875 a 1950). Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003.

DELUMEAU, Jean. A História do Medo no Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 2001.

MINOIS, George. A História do Riso e do Escárnio. São Paulo: UNESP, 2004.

RAMOS, F.; MIRANDA, L.F. Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: SENAC, 200.

SILVA NETO, Antonio Leão da. Dicionário de Filmes Brasileiros. São Paulo: 2002. SIMÕES, Inimá. O Imaginário da Boca. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1981 (Cardernos 6).

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O Império do Grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.



Laura Loguercio Cánepa é jornalista e doutora em Multimeios pelo IAR-Unicamp (2008). Atualmente, é professora do Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Foi coordenadora do curso de Realização Audiovisual da Unisinos (RS) e é membro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema desde 2002.