A cinefilia está em crise?




Érico Fuks


1 - A cinefilia em crise ? ´(Érico Fuks escreveu em 22/10)

Um dos comentários mais polêmicos do Leon Cakoff na coletiva de imprensa da Mostra foi justamente o título do debate acima: “a cinefilia está em crise”. Não pela dureza do adjetivo e abrangência de seu significado, mas pelo impacto negativo de sua concisão retórica taxativa e pelo mal-estar que gerou nos convidados. Ele, antes um cinéfilo do que um crítico e um realizador, tem o direito legítimo, em um ambiente democrático como foi a tal mesa-redonda, de externar suas opiniões, doa a quem doer. Em tempos modernos de proliferação de informações e de inverdades, é muito fácil se levantar dados estatísticos e artigos literários que embasem tal justificativa apocalíptica. Ou ainda, como líder inerente de uma bancada por ser o protagonista do evento, tinha todo o tempo do mundo para argumentar a pessimista proposição. Mas, da maneira lacônica como foi levantada, calcada meramente no achismo, a frase soou não mais do que antipática e infeliz. Antes de se vestir a carapuça ou de se condoer com as possíveis repercussões da afirmativa citada, é preciso responder a duas perguntinhas básicas: de qual cinefilia e de qual crise estamos falando?

Se considerarmos cinéfilo o indivíduo que vê um pouco de tudo, é temerário associar a ele um estado crítico das coisas. Por causa da tecnologia e da pirataria, nunca houve uma relação de tempo tão estreita entre o que é lançado lá fora e o que vem pra cá. Em alguns casos de bilheteria blockbuster, os lançamentos são quase que simultâneos. As refilmagens, as continuações e seqüências, a concentração de processos produtivos voltados a determinados gêneros considerados rentáveis, são apostas mercadológicas seguras que não dão ao indivíduo comum a chance de maiores questionamentos. Nunca se fez tanto mais do mesmo, até porque esse mecanismo cíclico de bitolação não abre uma ruptura ideológica para a crise aparecer. Há muito mais filmes a se encaixar nas grades dos circuitos do que salas disponíveis. Trata-se de uma fartura que leva à má-digestão. Agora, se a análise é excludente, e se é considerado cinéfilo apenas o indivíduo que caça organismos diferenciados de produções independentes e circuitos alternativos, aí sim a frase ganha um pouco mais de peso. O que não é um mau sinal, muito pelo contrário. Nesse âmbito de “vanguarda”, a crise é necessária. De um modo geral, é nas épocas de crise que surgem as oportunidades, inclusive e principalmente no campo artístico. Crise identitária funciona como oxigênio. Só mesmo esse processo para romper valores antigos e trazer outros aspectos inéditos para análise e reflexão. Se a cinefilia resiste a Godard ou Manoel de Oliveira, talvez seja um sintoma de que eles estão acima da crise. Mas se o espectador considerado “culto” não se empolga mais com Hal Hartley, Alex Cox, Godfrey Reggio ou Guilherme de Almeida Prado (apenas para ficar em alguns exemplos de ex-ícones da Mostra), isso quer dizer que a crise está no cinéfilo? Será que as distribuidoras de fato acompanham tendências estilísticas do que está acontecendo no mundo todo? Onde está o cinéfilo no conjunto de medidas de um processo que culmina no lançamento do filme nas salas de cinema? A identidade entre o cinéfilo e o cinema está minguando? De quem é a culpa? Como atribuir ao cinéfilo a “crise” do lançamento do filme “Possuídos”? Por que cineastas tão essenciais como Spike Lee e Abel Ferrara andaram sendo preteridos pelas marcas de cinema nos últimos anos aqui no Brasil? Por que Van Sant passou despercebido das telonas? Onde estão os filmes de Tsui-Hark, Hou Siao-Sien e de toda a produção coreana?

Sobre uma definição mais apurada da palavra “crise”, aí isso já vai levar umas considerações a mais. Como todo bom começo de século, a crise é um fenômeno mundial, em todas as esferas. Estamos passando pela mais ingrata das crises políticas, da crise ética e moral, crise bélica, crise social, crise de valores, crise estética. Pra rechear ainda mais o caldo de citações e diluir a contundência do postulado cakoffístico, estamos vivendo até uma crise aeroviária e uma crise energética, onde a qualquer momento a luz da sala de exibição pode se apagar e, na hora de irmos ao banheiro, temos de fazer uso racional e conscientemente ecológico da água e dos papéis-toalha. Falar em crise é fácil, difícil é encontrar saídas e soluções viáveis. Diante desse caótico estado das coisas, é claro que a crise econômica torna-se a mais visível, a mais carniceira, a mais irritante. Nunca o cinema custou tão caro. Mesmo que os processos digitais tenham democratizado o acesso e barateado os custos de produção e as leis de incentivo tenham colocado mais arte às telas, não existe uma alma viva que não reclame desse quesito. É quase inconcebível manter a cinefilia nos mesmos patamares de bilheteria dos anos 70 e 80 num país que cobra um ingresso beirando os US$ 10, quando em momentos mais áureos custava em torno de US$ 3. Matematicamente, existe uma relação paradoxal: no ano passado foi lançada uma quantidade maior de filmes brasileiros no circuito em relação ao ano retrasado, entretanto, a quantidade total de público pagante caiu. Isso leva à dedução de que o produto interno artístico bruto não consegue mais estabelecer um diálogo amplo, sincero e saudável com seu público, isso sem falar nas estrábicas estratégias comerciais de lançamento, cada vez mais esmagadoras e mais efêmeras.

Outro possível aspecto que versa sobre a causa desse infame maldizer sobre a crise cinefílica é a relação entre o público e seus vários canais de acesso ao cinema. Mesmo sem ter em mãos dados numéricos mais concretos, dá para se sentir que o cinéfilo está mais órfão do que nunca. O ponto de contato entre a crítica e a cinefilia se esvaiu. Outros meios de abordagem, mais investigativos e experimentais mas ainda incipientes em sua estrutura, estão buscando uma relação mais próxima com a arte mas, enquanto isso, é notória a quantidade de produtos que encaram o cinema como um parque de diversões e não como um campo de batalhas de idéias. Diante de tantas coisas que entram em cartaz e pouquíssimas que perduram com o tempo, crítico virou uma espécie de consultor de investimentos. Filme virou um papel sem valor, tão instantâneo quanto o corre-corre do mercado, tão descartável quanto as notas promissórias de seus pontos de vista e tão inútil quanto os precatórios. O arsenal informativo à disposição com um simples clique dos dedos está um verdadeiro dinossauro: gigante e gorduroso em sua estrutura corpórea, escasso e minúsculo em sua formação cefálica. Em suma, há muita referência e pouca reverência ao cinema.

Mas e a Mostra, o que tem a ver com tudo isso? Bom, diante de uma prerrogativa tão leviana quanto essa em jogo, o mínimo que poderia fazer é combater esse lastimável estado das coisas. Em parte, isso ela faz. O freqüentador tem acesso a um número quase ilimitado de produções recentes do mundo inteiro (apesar de todo ano amargurarmos nomes importantes que não são escalados), isso sem falar nas escolhas mais do que acertadas das retrospectivas. Há uma quantidade gigantesca de porcarias, mas em compensação alguns dos premiados nos principais festivais mundiais chegam às nossas vistas. O evento funciona também como uma espécie de termômetro, de indicador para o mercado do que pode futuramente ser contemplado num circuito mais abrangente. Em meio a um monte de experiências e garimpos, firmam-se tendências e revelam-se futuros talentos, como todo bom festival. Mas isso tudo diz muito mais dos princípios e fundamentos de concepção da Mostra do que efetivamente algo voltado ao que está sendo feito após três décadas para combater essa inércia cinematográfica. Fica difícil falar em crise com a quantidade de salas reservadas ao evento. O público freqüentador é progressivamente crescente; a cada ano, o festival incorpora novas safras de descobridores do cinema que prestigiam a maratona da maneira como podem. A Petrobras garantiu seu patrocínio quase que ad aeternum. Até mesmo as sessões vespertinas estão relativamente cheias. Crítico é perceber que alguns problemas logísticos e organizacionais perduram com o tempo. Crítico é não encontrar o catálogo nos quiosques, ao contrário do que foi prometido devido à parceria com a Imprensa Oficial. Crítico é cobrar R$ 16 por um filme em projeção digital, sem prévio aviso, com padrão de qualidade Rain Networks igual a TV em casa (após dois anos consecutivos comprando essa briga por meio de longos arrazoados, neste ano desisti de insistir na polêmica e coloco isso aqui apenas como um dado). Crítico é tomar uma atitude inédita de reservar apenas 20 lugares aos portadores de permanente integral na abertura (os que verdadeiramente prestam uma homenagem ao cinema), contra outros quase 800 destinados a autoridades, beldades e socialites. Crítico é fazer restrições cada vez maiores às credenciais para os jornalistas cobrirem o evento, sem que isso mexa um centímetro no mesmo benefício concedido aos veículos de fofocas e celebridades (também cansei de comprar essa briga).

Atacar a cinefilia de modo generalizado parece uma atitude meio cômoda. Mais sensato seria supor que a cinefilia está passando por um processo de transformação, uma reciclagem de valores tão sadia quanto dolorosa, e apenas algumas entidades estão suficientemente preparadas para atentar a isso. A Mostra tem um papel essencial nesse processo, mas aos poucos vem se identificando como um evento muito mais voltado aos holofotes da cidade de São Paulo do que aos cinéfilos propriamente ditos. Como em toda guerra civil, principalmente nos países subdesenvolvidos, muitos organismos se beneficiam da crise. Certa vez, num bate-papo informal de alguns anos atrás, ouvi dizer, sem garantias da veracidade da informação, que o Cakoff revelou que, naquela conjuntura, a Imprensa precisava da Mostra, mas a Mostra não precisava da Imprensa. Tamanha arrogância e auto-suficiência me deixa escapar uma pergunta de volta: e da crise, a Mostra precisa?



Marcia Schmidt


2 - Marcia Schmidt escreveu em 24/10

E para tentar entender um pouco mais o que Leon Cakoff quis dizer naquela ocasião, hoje (24/10) saiu um artigo seu na Folha de Sâo Paulo, intitulado "Não cabe à crítica querer educar o cinema".

"As evidências são flagrantes. Há menos espectadores seguindo críticos, e há menos críticos empenhados na formação de platéias. Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes."

E não trazer Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase, pra Mostra este ano (Grande Prêmio do Júri em Cannes ) não foi uma desconsideração excludente com o cinéfilo? Era um dos filmes que eu mais ansiava ver na Mostra. E através dos sites que cobriram o festival do Rio, onde o filme foi exibido, minha vontade de ve-lo aumentou e muito... Podem pensar: "Mas com tantos filmes bons, de grandes diretores, na mostra, ela vai falar de um que não veio...?"

..."Vamos ver o que acontece dentro da própria seleção da 31ª Mostra, onde temos um novo filme de Manoel de Oliveira e um novo de Claude Lelouch. Ambos fazem quase que um filme por ano, só que Oliveira não faz o sucesso que merece, e Lelouch faz (o sucesso que merece). Ambos são vítimas de uma boa parcela da crítica, inconformada com as suas existências. Só que o insucesso de Oliveira se consegue justificar, e o sucesso de Lelouch, não"...

Naomi Kawase não é Manoel de Oliveira, nem Claude Lelouch. Não faz um filme por ano - pelo que sei. Mas como vai ser descoberta, se não for na Mostra???



Érico Fuks


3 - Érico Fuks escreveu em 25/10

Agora sim tudo se explica. A tal da crise da cinefilia nada mais era do que um teaser para um artigo publicado na terça-feira 23/10, na Folha de S. Paulo, por Leon Cakoff. E também para o debate ocorrido no mesmo dia, devido ao lançamento do livro A Rampa, do crítico francês Serge Daney (1944-92), com a participação de Inácio Araújo e Luiz Zanin Oricchio, e videoconferência de Serge Toubiana, diretor da Cinemateca Francesa e ex-diretor da revista Cahiers du Cinéma. Com um aprofundamento maior sobre a questão e com o abrir-o-leque para outros interessados e outras visões, ficamos com a sensação positiva de abraçar ao menos a boa vontade do organizador para chegarmos a um entendimento. É fato notório que existe uma distância entre crítica e público. Que cada vez mais o crítico abandonou sua função quixotesca de formador de opinião para se transformar num formador de mercado. Que o “eruditismo” crítico pode trazer ao público um material já previamente estragado sem o vencimento da data de validade. O papel do crítico não é enterrar o cinema, mas cada vez mais despertar apaixonadamente a ampliação de olhares, o choque, o confronto, a reflexão. Nisso, estamos de acordo. O ideal da crítica é fazer o texto sobreviver, ao contrário da descartabilidade que a mídia sugere. Se for incutido no leitor um pontinho para se pensar um pouco mais, já é um bom sinal. Tá certo que nem público nem crítica devem ser maiores do que o cinema. Mas só o fato de o filme gerar uma nova idéia ao crítico, e esse crítico levar essa questão ao leitor, já se tem um outro filme. É aí que ocorre a transformação do cinema.

Cakoff cita os preconceitos em torno de Claude Lelouch, por exemplo. Um diretor que faz sucesso de bilheteria em seu país. Já Manoel de Oliveira, idolatrado por boa parte crítica, não é tão campeão de vendas assim. Paciência. Entrar em sintonia com o público que dá dinheiro aos exibidores não quer dizer, necessariamente, estar de acordo com as propostas de escolas e visões cinematográficas mais rentáveis. No final do artigo, Cakoff cita Cássio Starling Carlos que, no caderno Mais! de domingo passado, mencionou alguns sites e revistas que lutam em prol de uma crítica inquieta e reflexiva. E cobra o link dessa visão apaixonada do diretor sobre o cinema. Eu ainda não vi o filme dele na Mostra e confesso que não é das minhas prioridades, mas, pelo que acabei de ler da crítica do Cid Nader, não há muitas considerações favoráveis. Que assim seja. Um apaixonado por carro não é via de regra um bom motorista. Vamos continuar sustentando, cada vez mais, a discórdia, o embate, a pressão molecular. Dessa vez, Deus seja louvado, não para falar das credenciais ou da projeção em digital. Mas para reverenciar, mesmo criticando, o cinema. Somente assim teremos instrumentos menos mercadológicos e mais eficazes para crescermos e nos tornarmos melhores naquilo que a gente faz com gosto. Não só como críticos, não só como cinéfilos, mas principalmente como indivíduos atentos de olhos arregalados ao legado que o cinema nos traz.