Um bate-papo bem informal sobre o papel do crítico. E-mails da lista interna que viraram um EM Discussão.




Editoria do Cinequanon


1 - Para entender a discussão...

Já está no ar, há cerca de um mês uma lista com os 20 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pelos redatores da Revista Paisà. A edição que saiu apenas em versão on-line, ouviu cerca de 20 críticos da redação da revista - nem todos da redação mandaram suas listas - e vem causando grande repercussão devido às escolhas do grupo, batizado correta ou incorretamente de “jovem crítica”. O próprio Sérgio Alpendre, editor da Paisà, logo na primeira linha do texto introdutório às listas diz que a “idéia era mapear o gosto dessa tal de jovem crítica”.

O fato é que essa lista vem gerando um enorme número de e-mails na lista interna do site e como a proposta da Coluna Em Discussão é justamente essa, ou seja, abrir as discussões da lista interna do site para possibilitar ao cinéfilo internauta participar do debate, resolvemos reproduzir aqui os e-mails na ordem e da forma como que foram mandados para compartilhar com os nossos leitores a discussão e convidá-lo a participar também. A lista da Paisá pode ser acessada em http://www.revistapaisa.com.br.

E antes de publicar os e-mails, uma outra explicação, toda a discussão surgiu diante de uma discussão em torno dos filmes “Saneamento Básico” e “Conceição” e da cotação que editores do Cinequanon deram aos filmes no Quadro de Cotações do site. Fábio Yamaji deu cotação 1 para “Conceição” que equivale a um filme “meia boca”, como está na legenda do quadro, e Rogério Ferraraz deu 4 para “Saneamento Básico”, o que na legenda equivale a “puta filme”. Essa discussão em torno da avaliação dos filmes acabou migrando para a lista da Paisà e para o papel do crítico.



Marcelo Lyra


2 - Marcelo Lyra escreveu em 25/7

Não concordo, Fábio. Acho que Conceição merece no mínimo três. Há cinema ali, retrabalhando conceitos da autoralidade, dos fantasmas da criação, que se discute muito em literatura (e teatro) como em "Seis Personagens à Procura de um Autor". Se eu conseguir escrever, vou abrir com o título "Um personagem à procura de cinco autores". Mas o principal para mim é a energia, aquele pulsar cinematográfico, que o filme transpira. Há uma pegada sganzerliana com toques de Godard, que me agradou. E aquele caçador, gente, muito bom. Significa muita coisa. Para mim, a auto-censura que todo autor tem, de achar que não está bom, vontade de apagar tudo e recomeçar, eliminar personagens... Não é obra prima. Mas tem valor. abs



Fábio Yamaji


3 - Fábio Yamaji escreveu em 25/7

Lyra, não duvido da intenção dos diretores, mas eles não conseguiram se expressar com as próprias palavras. Essa presença de Sganzerla, Godard e Tonacci é o que mais me incomodou, pois forçaram a barra pra que o filme fosse sentido sob essas "influências". Vejo estes autores no filme como plagiados, e não como inspiradores. Por isso "Conceição" me soou falso, mais como aqueles curtas universitários metalingüísticos com pretensões artísticas e intelectuais do que algo visceral que conhecemos das obras de Sganzerla, Godard e Tonacci. Outro ponto é que o filme nasce esteticamente envelhecido, não pela demora em sua finalização, mas por copiar os trejeitos do cinema marginal. Cópia mesmo, e não uma homenagem ou releitura, como faz Tarantino, por exemplo, com competência. Diante de tudo isso, qualquer ponto positivo do filme se diluiu, pela falta de personalidade em trabalhá-los. Lembro de ter visto algumas boas idéias, mas no fim pouca coisa ficou na cabeça.

Abraços, Fábio



Rogério Ferraraz


4 - Rogério Ferraraz escreveu em 26/7

Saneamento Básico - O Filme - entre 3 e 4 (tem 3,5? rs...).



Leonardo Mecchi


5 - Leonardo Mecchi escreveu em 26/7

Não tem. 3 ou 4? Hehehe... Abraços, Leo Mecchi



Rogério Ferraraz


6 - Rogério Ferraraz escreveu em 26/7

vamos polemizar então... rs... coloque 4! hehehehe...



Cesar Zamberlan


7 - Cesar Zamberlan escreveu em 26/7

Rogério para polemizar não basta dar a nota, é preciso de um texto explicando porque o 4. Aliás isso poderia virar regra no quadro, notas consideradas polêmicas pela maioria deveriam obrigatoriamente ter um texto junto a justificando. O que acham?



Leonardo Mecchi


8 - Leonardo Mecchi escreveu em 26/7

Eu acho que com isso corre o risco de se colocar o quadro em "banho maria", com todo mundo buscando cotações próximas do lugar comum pra não ter mais uma cobrança. Já percebemos nas últimas discussões aqui que não é na base da obrigação que vamos conseguir fazer as pessoas escreverem. Não sei, eu penso assim.

Abraços, Leo Mecchi



Cesar Zamberlan


9 - Cesar Zamberlan escreveu em 27/7

Mecchi, não estou cobrando o texto não, estou apenas sugerindo. Mas se houvesse essa regra, com certeza, isso iria acontecer. Agora que algumas notas nesse quadro rendem boas e divertidas polêmicas rendem e não é de hoje, vide a nota pro 2046 do Érico.

Abraços



Rogério Ferraraz


10 - Rogério Ferraraz escreveu em 27/7

Falei polemizar de brincadeira, Cesar... rs... é que achei o filme tão bacana, leve, divertido, engraçado, popular etc. que não concordei com a recepção que ele teve entre os críticos, principalmente entre nós, a chamada "jovem crítica", que parece ter estacionado nos anos 60 e 70, especialmente nos filmes e na estética cinemanovista ou marginal/underground/udigrudi... (vide a lista da edição especial da Paisà com os 20 melhores filmes brasileiros de todos os tempos...). mas foi só uma brincadeira minha, mais nada... rs...

abção! roger.

p.s. outra coisa: acho que Saneamento Básico é um filme para se ver com o cinema cheio, com espectadores "comuns", e não em cabine... Fazia tempo que eu não assistia a um filme com o qual as pessoas se divertissem tanto, interagindo com falas ("conversando / dialogando" com o filme mesmo!), palmas, risadas etc.



Laura Cánepa


11 - Laura Cánepa escreveu em 27/7

Sobre o "Saneamento", acho que a nota 4 não é assim tão "polêmica", mas o Ro podia mesmo escrever um texto comentando essas impressões sobre o filme. de fato, ele tem tido uma ótima recepção de público, e, particularmente no caso do cinema brasileiro, isso diz muito. de qualquer forma, sempre há disparidades enormes no quadro, e é isso que o torna tão interessante.

Por fim, como eu não sou da turma do udigrudi, só quero dizer que achei a lista da Paisá meio lugar-comum... hehehe... sei que todas as listas tendem a ser assim, mas podia ter rolado mais originalidade ali... e realmente falta "Eles Não Usam Black Tie"... entre outros...



Fernando Watanabe


12 - Fernando Watanabe escreveu em 27/7

Não acho lugar comum não, até porque uma lista dessas não pretende ser original nem polêmica, mas sim dizer mais sobre o perfil dos votantes (no caso, de um conjunto de críticos) do que propriamente fingir que estão escolhendo os melhores filmes de todos os tempos de maneira séria e incontestável.

E sim, talvez um gosto estacionado nos anos 60, mas o gosto independe do tempo e não é necessariamente evolutivo não?

abs! Fernando



Laura Cánepa


13 - Laura Cánepa escreveu em 27/7

oi, Wata! não sei... se é para reproduzir o cânone de 30 anos atrás, por que fazer uma nova lista? ... mas é só um desabafo, porque todo mundo tem direito de gostar (e de votar) no que bem entender... *rsrsrs beijos!



Érico Fuks


14 - Érico Fuks escreveu em 27/7

Não sou muito chegado a fazer listas, quanto mais avaliar a dos outros. Até porque, nem vi a lista na totalidade. Não quero causar (ou alimentar) a polêmica pela polêmica. Vamos tomar cuidado para não parecer desdém e ressentimento de quem não votou X defesas e justificativas de quem votou.

Dito isso, acho esse debate bastante importante e, melhor, interessante. Sejam quais forem as motivações, a lista é um resultado, um reflexo de algo, de um pensamento, de um conjunto de opiniões, enfim... seria interessante, não sei como, colocar de alguma forma no site. Aqui na lista, é natural, o papo rola mais solto, mais descontraído. E a nossa coluna Em Discussão tá meio parada. Não sei se é porque o ofício de se publicar algo trava um pouco as pessoas, mas acho uma pena que esse debate interno, tão acalorado e produtivo, acabe se proliferando para um grupo de 12 pessoas, dentro de um potencial de mais de mil. Juro que não sei como, mas acho que seria interessante pensarmos num jeito de externar essas opiniões pra colocá-las no site.

Abs, bjs. Érico



Rogério Ferraraz


15 - Rogério Ferraraz escreveu em 27/7

Quanto à idéia de publicar esses e-mails no Em Discussão, acho uma boa idéia... só tenho receio de que acabe parecendo uma "resposta" à lista da Paisà... sei lá...

Laurinha, concordo em parte com suas idéias... o cânone, pra variar, prevaleceu! Afinal, são anos e mais anos de turmas formadas pelas idéias de uma única corrente de pensamento sobre cinema que, até hoje, é dominante no Brasil, sem falar na grande influência que alguns (poucos) cineastas têm sobre a nossa "geração"... mas, enfim, VIVA O CINEMA, seja ele bom e/ou ruim, autoral e/ou industrial, experimental e/ou de entretenimento, brasileiro e/ou estrangeiro... VIVA O CINEMA, SEJA ELE QUAL FOR!



Marcelo Miranda


16 - Marcelo Miranda escreveu em 27/7

O Rogério delirou no final da mensagem dele...



Laura Cánepa


17 - Laura Cánepa escreveu em 27/7

juuuuuuuuuuro que não pretendia ir longe com a polêmica, mas eu discordo do Wata. A lista feita por um crítico não precisa refletir apenas o gosto particular dele, mas também, me parece, pode informar aos leitores, oferecer um mapa. E o cinema brasileiro é bem mais vasto do que parece quando se vê a lista final. Então, acho que ainda faltam o Pixote, o Cangaceiro, o Homem do Sputnik, o Invasor, sei lá, filmes mais variados. Até os Saltimbancos Trapalhões, sem falar no Khouri... mesmo o filme escolhido do Mojica é o que mais se identifica com o cinema marginal... eu acho isso meio fechado, enfim... foi só um comentário... talvez a minha lista nem fosse assim tão diferente... mas é tão notório o recorte que eu quis comentar... bjs!



Marcelo Miranda


18 - Marcelo Miranda escreveu em 27/7

Em relação ao que o Rogério disse (só tenho receio de que acabe parecendo uma "resposta" à lista da Paisà ), acho que um risco chato...



Érico Fuks


19 - Érico Fuks escreveu em 27/7:

Entrar no mérito da lista da Paisá é um risco chato mesmo. Mas falar sobre o que a "jovem crítica" mais gosta, o que eles elencam como filmes fundamentais de todos os tempos, por que aparecem poucos filmes recentes, por que certas estéticas ficam de fora, por que existe uma certa rejeição com filmes que foram bem de bilheteria, e outras coisas, acho um assunto de tamanha importância e urgência, não acham? Afinal, mesmo que só alguns de nós foram convidados a votar, o cinequanon como um todo faz parte desse movimento, e disso não podemos nos esconder.



Leonardo Mecchi


20 - Leonardo Mecchi escreveu em 27/7:

Mas Laura, o objetivo da lista não era ser um "Guia Paisà da diversidade do cinema brasileiro" mas sim, como diz a primeira frase do texto introdutório do Alpendre, "mapear o gosto dessa tal de jovem crítica".



Laura Cánepa


21 - Laura Canepa escreveu em 27/7:

Oi, Mecchi! isso só prova o quão "pouco diverso" é o gosto dessa "jovem crítica"...



Leonardo Mecchi


22 - Leonardo Mecchi escreveu em 27/7:

Olá Laurinha! :)

Na verdade, foram citados 114 filmes como os "20 melhores", se você analisar as votações individuais. Ou seja, há sim uma diversidade dentro dessa jovem crítica. Não é uma opinião homogênea (todos votando nos mesmos 20 filmes).



Marcelo Lyra


23 - Marcelo Lyra escreveu em 27/7:

Caros, uma lista é apenas uma lista. Elas surgem apenas para gerar polêmicas. O Filipe Furtado fez uma lista no blog dele "Anotações de Cinéfilo", que é bem interessante, lista por ano, por interesse... Ele colocou Sete Mulheres, do Ford, e não colocou Rastros de Ódio. É uma heresia, mas está bem fundamentada. Então, bola para frente. Tem um link no meu blog, o Rapadura de Humor. E a lista de 100 dos críticos americanos também é polêmica. A idéia e essa. Cada um que faça sua lista. Quem precisa de mapa, que vá achar o seu. Abs.



Laura Cánepa


24 - Laura Cánepa escreveu em 27/7:

Bom, Lyra, então chamemos de lista de cinéfilos, e não de críticos... quando a figura do crítico entra em cena, espera-se que a lista não apenas informe o gosto do crítico, mas reflita um julgamento baseado num conhecimento (e num reconhecimento) do conjunto.

Essa é uma velha questão dos estudos de cinema no Brasil que tem se reproduzido na crítica: boa parte do cinema brasileiro (a maior parte dele, inclusive) simplesmente não é levada em consideração na hora de se estabelecer um cânone. assim é barbada fazer a lista...

Mas é claro que não se trata de desqualificar a lista da Paisá, que tem ótimos filmes, muito menos os autores da lista. Só acho que se trata de mais um sinal dessa tendência no pensamento sobre cinema brasileiro que acaba deixando todo mundo (público, cineastas, críticos e pesquisadores) num beco sem saída.

bjs!



Marcelo Lyra


25 - Marcelo Lyra escreveu em 27/7:

Mas Laura, um crítico é apenas um cinéfilo que resolveu escrever sobre o assunto. Alguns também resolvem tentar entender o contexto lendo livros, mas no fundo são cinéfilos. Conheço dois ou três críticos que estão aí mais pela grana, que não curtem ver três filmes e chegar em casa e por mais um no DVD. Mas esses eu nem levo em conta. Gostando ou não (e eu não gosto muito) da lista da Paisá, tenho de admitir que ela é, sim, um julgamento baseado num conhecimento (e num reconhecimento) do conjunto, de acordo com o gosto pessoal de cada um, mas que encontra eco nas afinidades eletivas de certo grupo, abs Lyra.



Marcelo Miranda


26 - Marcelo Miranda escreveu em 27/7:

Lyra você disse: "um crítico é apenas um cinéfilo que resolveu escrever sobre o assunto". Discordo com todas as forças do universo a respeito dessa acepção. Aliás, é por causa de pensamentos assim que os críticos parecem não ganhar respeito suficiente de leitores que discordam de quem escreveu. O que é claro: se o crítico é "apenas um cinéfilo", então qualquer cinéfilo pode se dar ao direito de dar pitaco sobre um filme e desqualificar o pensamento do outro. Leitura, estudo, aprofundamento teórico-prático? Pra quê? Basta ser "apenas" um cinéfilo e querer escrever.

Abraços, Marcelo (alimentando polêmica e botando lenha!! heheheheh)



Fernando Watanabe


27 - Fernando Watanabe escreveu em 28/7:

Sim, o MM disse tudo e tomo a liberdade de complementar um pouco.

Um crítico não é um mero bom escritor que preza mais o texto do que o assunto (como no meu caso) nem um mero entendedor de cinema que usa o texto como veículo de seu conhecimento.

Na minha visão talvez ainda ingênua, ele deve interagir no mundo real, encontrar pessoas do mercado de cinema, da academia, circular por várias áreas do cinema, participar de debates, palestras, festivais, mas principalmente, estar dentro da coisa. É ação prática mesmo que vai muito além da análise segura e distanciada de filmes prontos. Mas isso num mundo ideal e perfeito não?

Fernando



Érico Fuks


28 - Érico Fuks escreveu em 28/7:

Aproveitando o embalo sobre a definição/função do crítico, acho que no Brasil não se vê arte de um modo geral como investimento, mas sim como gasto. Ninguém quer o dinheiro de volta de um restaurante onde a comida não estava boa. Ninguém pede o ingresso de volta quando vai ao estádio e seu time perde ou joga mal. Ninguém quer arriscar, as pessoas (de um modo geral) optam por aquilo que tem mais chance de agradar. Cinema é experimentação, é mistura de sensações, é estar aberto ao novo. Que nem sempre agrada aos olhos, do ponto de vista hedonista. É por isso que há tantos remakes, é por isso que a arte está enjaulada em fórmulas. As pessoas acham que o único lugar onde se pode ousar é na Bienal, e olhe lá.

E é esse tipo de reação que a gente deve estar preparado pra enfrentar. O leitor "médio" não está muito aí pra análises críticas, ele prefere a tal da indicação. Ele quer saber se tal filme "vale ou não vale" os R$ 17. Daí vejo, infelizmente, nosso papel como de consultores de investimento: a cotação desse filme tá baixa, a cotação daquele outro subiu...

Não sei vocês, mas comigo quando me consultam há um pragmatismo fdp. Desanimador.



Fábio Yamaji


29 - Fábio Yamaji escreveu em 28/7:

Toda lista quer dizer mais do que foi excluído que incluído. Porque o número de listados nunca é suficiente, sejam 10 ou 100.



Fábio Yamaji


30 - Fábio Yamaji escreveu em 28/7:

Concordo que um crítico não é exatamente um cinéfilo. Pelo menos não os que estão aí. Aliás, longe disso. Mas tem cinéfilos que não escrevem, mas fazem ótimas críticas oralmente.

Elaborando aqui, rápido, acho que o crítico é o cara que tem algo a dizer sobre determinado assunto, mas só deverá ser levado a sério se o conhecimento na área transparecer em seu texto ou se isso tiver sido comprovado de alguma forma (se for alguém já conhecido por críticas anteriores ou se tiver algum trabalho reconhecido na área em que escreve).

E, algo importante pra mim: a crítica só é aproveitável se o filme já tiver sido visto. Enfim, pessoalmente, nunca me considerei crítico e nem tenho tal pretensão. Embora eu possa até ter escrito críticas.

Acho importante que o crítico profissional esteja fora da produção de cinema. Difícil ser crítico e cineasta. Não dá pra ficar neutro. É por causa desta ligação que não faço críticas de filmes brasileiros. É preciso ser honesto ao escrever, e sendo honesto posso perder trabalho ao criticar colegas.

E acho que críticas são dispensáveis pros filmes. E são mais importantes pra quem escreve do que pra quem lê.

Concluindo, sou opinador de cinema.

E sei que este e-mail está mal escrito (eis uma autocrítica).



Fernando Watanabe


31 - Fernando Watanabe escreveu em 28/7:

Verdade Fábio, nisso você matou, o crítico deve estar fora da Produção, mas é legal que tenha passado por ela ou que mantenha contato com os processos (roteiros, projetos, editais, técnica) e profissionais.



Marcelo Miranda


32 - Marcelo Miranda escreveu em 28/7

Críticos como consultores de investimento é genial, Érico... Porque é por aí: quantas e quantas pessoas vêm a mim perguntando o que vale mais a pena ver? Ler os textos, que é bom, não lêem, mas acham que tenho a obrigação de lhes indicar um filme pro fim de semana... E se ela não gostar, ai de mim! Dureza.



Marcelo Miranda


33 - Marcelo Miranda escreveu em 28/7

Não, Fábio, não acho que o crítico deva transparecer conhecimento num texto pra ser levado a sério. Claro, isso rola, mas está longe de poder ser usado como definição da "profissão". Acho que poucos no mundo definiram tão maravilhosamente bem (e sem "transparecer conhecimento") o que é o crítico do que o Andre Bazin:

"O papel do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto de arte".

Acredito exatamente nisso. E há de convir que, dentro dessa definição, não há necessariamente a obrigação de se demonstrar conhecimento prévio. O importante, creio, é que a bagagem do crítico sirva para o trabalho que ele vai desenvolver, em vez de o trabalho servir pra ele despejar sua bagagem. Um dos grandes problemas da crítica em geral (e dessa "jovem crítica" em particular, em alguns casos) é a preocupação de despejar a bagagem no texto, em vez de simplesmente usá-la para seguir o caminho pensado sobre o filme. Aí, sim, é caso de crítico que escreve pra si mesmo. Mas se há preocupação em compartilhar o filme com o leitor, de prolongar seu impacto (como diz Bazin), a crítica pode se tornar uma peça de cumplicidade.

Outra discordância: as críticas NÃO são dispensáveis aos filmes. Quer dizer, elas são se for "Transformers", "Homem-Aranha", "Superman" e afins... Mas um filme pequeno, de baixa visibilidade, que não têm maiores divulgações exceto a crítica, espera justamente que a crítica o coloque pra cima. E todos sabemos que determinados filmes se salvam por uma crítica boa num veículo de grande circulação.

Abraços. MM



Marcelo Lyra


34 - Marcelo Lyra escreveu em 28/7

Quanto às indicações, todos nós críticos amadores ou profissionais temos que fazer. Já tive amigo que me pediu para ir à locadora comigo, quando soube que eu ia, para pegar dicas. Basta ver que mais vale a posição do bonequinho do Globo do que as críticas. O cara abre o jornal, vê a posição do bonequinho e decide se entra ou não. Naquele documentário do Kléber Mendonça sobre crítica, eu falo sobre isso. E digo, como exemplo, que já vi gente dar bonequinho dormindo, pasmem, para O Homem Sem Passado, do Kaurismaki. Na minha lista do Cinesesc daquele ano, esse filme estava em primeiro lugar, ou seja, meu bonequinho estaria aplaudindo de pé. Também sempre cito isso em aula para explicar o problema que é se basear em cotações. A única coisa que lamento é que os cursos que dou sempre são curtos, três dias, uma semana. No Ceará tive duas semanas e adorei. Confesso que invejo a Laura e o Rogério, que podem dar aulas num curso universitário. É um dos meus sonhos, mas me atrapalha o fato de não ter mestrado. Bom, tudo isso para me meter em outra polêmica e arriscar que amigos fiquem de mau comigo. Mas vou discordar do Fábio, do Wata e especialmente do Miranda, justamente porque penso muito e há muito tempo nessas questões da crítica.

Primeiro, Fábio e Wata, me dêem razões sólidas para dizer que um crítico não pode fazer filmes, pois discordo bem radicalmente disso. Um dos fatores que levam o Inácio Araújo a ser o melhor crítico do Brasil (eu pelo menos acho) é o fato dele também ser cineasta e montador. Ele conhece cinema (e nem é dos mais cinéfilos que conheço, mas já vou chegar lá, Miranda), mas certamente deve boa parte da sensibilidade para achados visuais e de roteiro a sua experiência profissional.

Pô, gente, falar isso é o mesmo que dizer que o Guga não poderia comentar um jogo de tênis, pois ainda é profissional. O Luciano Burti virou comentarista da Fórmula 1 e dá banhos no Reginaldo Leme, justamente porque já esteve lá, dirigiu um carro de Fórmula 1, entende como ele se comporta e os diversos fatores que incidem numa pilotagem, e ainda é piloto de testes. Dou exemplos de fora do cinema, porque muito cinéfilo tende a ficar fechado nesse mundinho do cinema sem perceber que tudo na vida se relaciona. Então o Truffaut e o Godard não poderiam mais fazer críticas quando se tornaram diretores?? E o Glauber, o Walter Lima jr., e todos os cineastas que antes foram críticos?? Muito pelo contrário.

Não me venham com esse papo porque eu não entro nessa. Claro que o fato de ser diretor também não torna o texto de um crítico melhor. Se ele não tiver sensibilidade e bom senso na hora de escrever, vai ser tão medíocre quanto um crítico que vem só da teoria.

Quanto ao crítico não ser cinéfilo, Miranda, você pode discordar com toda força que não vai me convencer, ao menos não com esses argumentos que colocou. E olha que eu sou bem aberto a ser convencido.

Bom, esse e-mail está muito extenso, vou responder a você no seu e-mail, assim dá para ir olhando seus argumentos.

abs Lyra



Marcelo Lyra


35 - Marcelo Lyra escreveu em 28/7

Bom, Miranda, meu velho, vamos lá.

Você discorda com todas as forças que o crítico é um cinéfilo que resolveu escrever, mas eu acho que você é um cinéfilo que resolveu escrever. Qualquer cinéfilo pode sim dar pitaco e pode desacreditar ou discordar do crítico sim, mas se não fundamentar bem, vai levar pau no mesmo espaço que usou, seja num comentário abaixo do texto, vide o “Mil Toques” (Coluna do Cinequanon), como aconteceu com o Érico há pouco. Essa é a dinâmica.

O fato de escrever num grande jornal não torna sua opinião melhor que a de um cinéfilo amador. Nem o torna mais ou menos merecedor de respeito que esse cinéfilo, esses caras que às vezes escrevem e-mails para os sites detonando os críticos.

Coloquei você em primeiro, e em destaque, não para te chatear, mas quase todos aqui, eu incluso (repito, eu incluso), são cinéfilos que resolveram escrever sobre cinema, exceto talvez o Rogério e a Laura, que têm uma formação acadêmica. Ou seja, o que disse de você vale para todos nós. O Fucks, o Fábio e o Cid são casos que eu dou como exemplo. Sempre os via nas filas da Mostra, nem imaginava que um dia seríamos amigos, são ratos de cinema, cinéfilos que resolveram escrever. Mas vá lá no meu texto, sem pinçar uma frase fora do contexto. Digo que "o crítico é um cinéfilo que resolveu escrever e alguns resolvem se aprofundar, ler mais e entender o contexto". Esses acabam naturalmente se destacando. Viram bons críticos. Os outros viram apenas críticos. E uma parte deles vira críticos medíocres.

Um diretor que faz críticas e um cinéfilo que faz críticas são os dois caras que mais me interessam ler, pela capacidade que tem de decupar um filme, de perceber sutilezas na imagem que muitos não percebem. Como eu posso concordar com o Fábio, o Wata e o Miranda??

É isso, por ora. abs Lyra



Fábio Yamaji


36 - Fábio Yamaji escreveu em 28/

Lyra,

Num mundo perfeito todo crítico teria tido experiência prática no cinema. Aliás, são esses que costumo gostar mais (apesar de eu não ser um grande leitor de críticas). Presto mais atenção em textos escritos por cineastas. Dos críticos que depois foram pra trás das câmeras, só Truffaut e Rohmer mesmo (e um pouco de Godard).

O que acho difícil é que alguém leve as duas carreiras em paralelo. Até onde eu sei, todos esses cineastas-críticos que você citou atuaram em cada carreira separadamente. Mas não é uma idéia fechada. É a impressão que eu tenho.



Fernando Watanabe


37 - Fernando Watanabe escreveu em 28/7

Lyra,

estamos falando da mesma coisa (eu, vc e fabio). Não é que um crítico não possa fazer filmes! É um crítico que faz filmes. Agora, se ele entra de cabeça na coisa, vira um cineasta (ou outra função técnica) que tb escreve. Cineasta-crítico é difícil, mesmo os que parecem ser (até conhecidos nossos de outras revistas), na verdade possuem uma faceta que se sobrepõe sobre a outra nitidamente. Ou é cineasta que escreve ou é crítico que faz filmes.

Pq se ele já é reconhecido como cineasta, a tendência é evitar criticar os filmes de colegas de profissão e mais comentar, como o Fabio. Se mesmo assim continua a criticar, a crítica dele muda, isso é notável. Não é que piora, mas fica menos duro (como o é um crítico afastado da produção) e procura falar mais de pontos bons de filmes que antes ele atacaria, ou só escreve daquilo de que gostou, não vira um mentiroso, mas passa a omitir opiniões com todo o direito. Ou então passa a escrever de forma programática defendendo aquilo que se alinha com o cinema que ele faz, principalmente se ele se coloca "à margem" do sistema, Já o inverso (e infelizmente menos comum) é o que já fez e participou da feitura de filmes começar a escrever e passar a priorizar a crítica.



Marcelo Lyra


38 - Marcelo Lyra escreveu em 28/7

Wata:

O que escrevi para o Fábio vale para esse seu texto tb.

Quanto a essa afirmação sua: ["ele já é reconhecido como cineasta, a tendência é evitar criticar os filmes de colegas de profissão"], vc está dizendo que o crítico, qdo vira cineasta, automaticamente vira um vaselina? Acho que não. O cara tem que saber ser imparcial, senão, vai se afundar e perder o respeito dos colegas. Isso seria pior do que roncar nas cabines.

Outra coisa que vc fala e não concordo: ['passa a escrever de forma programática defendendo aquilo que se alinha com o cinema que ele faz"], vc está confundindo causa e efeito. Acho que aí ele está defendendo o que se alinha com as idéias dele, que, não por acaso, é o cinema que ele faz.

abs Lyra



Marcelo Lyra


39 - Marcelo Lyra escreveu em 28/7

Fábio, poderia citar de cabeça, de críticos que filmaram e continuaram escrevendo, o Bognadovich, o Glauber, o Jairo Ferreira, o Eduardo Valente, o Kléber Mendonça... O Reichenbach escreve sobre cinema e filma. Mas o trabalho no cinema é tão absorvente que faz muita gente parar de escrever.

Mas nada impede. Na verdade, mais prejudica, ao menos no Brasil. O pessoal que faz seleção de roteiros nos editais é gente que está no meio. Se vc, crítico, detona o filme que algum desses caras montou, fez roteiro, fotografou etc, ele pode lembrar disso quando ler um roteiro seu.

abs Lyra



Fábio Yamaji


40 - Fábio Yamaji escreveu em 28/7

Exatamente. Este é o maior prejuízo.



Liciane Mamede


41 - Liciane Mamede (que está na Holanda) escreveu em 29/7

oi, pessoal,

estou chegando atrasada a essa discussão. estive um pouco ausente da lista (e estou um pouco ausente do circuito geral) por questões pessoais. Mas quando, depois de muito tempo, acessei meu e-mail do yahoo, não deixei de ficar MUITO surpresa com o calor da discussão que estava rolando. acho que já peguei a poeira meio baixa, mas mesmo assim, não gostaria de ficar sem opinar. Acho essa uma discussão muito oportuna mesmo porque, querendo ou não, o Cinequanon é considerado um site de criticas cinematográficas e até agora nunca paramos para discutir (pelo menos eu nunca estive presente em tal discussão) o que isso significa no final das contas. O que é esse tal papel "crítico" desempenhado pelo site? E, afinal, não há como negar que há realmente uma "ética" envolvida nisso da qual nem o Cinequanon, enquanto veiculo que da voz e transmite idéias e informações para algumas milhares de pessoas, nem aqueles que nele escrevem (sejam "críticos" ou não) podem simplesmente abdicar.

Para mim, um crítico de cinema pode sim ser um cinéfilo - isso com certeza facilita o seu trabalho e o torna mais interessante -, mas não necessariamente. Existe, porem, uma outra característica que é essencial e dessa sim, não há como fugir: um crítico tem que amar o cinema. Mais do que isso, o filme tem que ser um objeto que o instiga, que o desafia a ir além. Como o Marcelo Miranda disse, mais importante do que mostrar referências nas criticas, é demonstrar por meio do texto (afinal, é a palavra o principal instrumento do crítico) que essa paixão existe e que é ela que o inspira a escrever (porque a palavra pela palavra, não é nada). Mesmo quando se aponta o dedo para dizer que um filme é ruim, tem de haver uma paixão operando por trás daquilo. É por isso que muitas vezes, um filme ruim ou um filme que extravasa certos limites éticos-morais-estéticos pode ser tomado como ofensa pessoal por uma pessoa que ama o cinema. Não ha paixão sem convicção, não se ama sem se crer cegamente. E por isso mesmo, o critico, o o cinéfilo têm, sim, o direito de ficar ofendidos com um filme que fere sua convicção por aquela instancia sagrada, o cinema. Mas voltando, não basta amar para ser crítico. O cinéfilo também ama. Para mim, o diferencial do crítico se da pelo exercício crítico. Parece meio redundante e óbvio, mas existe muita coisa implicada nisso. O exercício crítico inclui a busca e o interesse pelo conhecimento direcionado a um determinado assunto, inclui uma determinada "educação" da sensibilidade (não só para que essa sensibilidade possa captar melhor as "nuances" do objeto, mas também para que ela seja capaz de perceber de que forma esse objeto se relaciona com as pessoas e com o mundo no qual ele está inserido), inclui também o respeito a certos códigos éticos tácitos (o que de alguma forma está relacionado a essa "educação da sensibilidade"), enfim há uma dedicação que o crítico tem que disponibilizar ao seu objeto que o cinéfilo não precisa fazer. E isso não significa dizer que o crítico não perambula por terrenos intuitivos. Pelo contrario, ele tem que fazer isso. Não há formulas para se "criticar" um filme, para dizer se ele é bom ou ruim. O critico tem sim que recorrer ao seu gosto estético para julgar, porem, ele precisa também agregar ao seu texto um embasamento que só se alcança dentro de uma disciplina em prol desse tal exercício crítico.

Só para completar, eu acho que existe uma ética envolvida no exercício critico, uma responsabilidade por trás dessa "função". Porque a partir do momento em que vc se denomina crítico e publica textos em algum lugar, aquilo que vc escreve, invariavelmente, muda de patamar. Ser critico significa não ser apenas-um-cinéfilo-curioso-como-vc-que-está-me-lendo-agora. A voz do critico é sim uma voz com "conhecimento de causa", do contrário, qualquer um seria critico. Pra terminar, eu também acho que por outro lado existe um código ético que tem de ser respeitado por qq um que publica um texto, considere-se ele critico ou não.

Sinceramente, eu não me considero uma "critica", apesar de ter votado na lista da Paisà. o Sérgio pediu para que eu enviasse minha lista. Eu fiz meu levantamento com todo cuidado que pude e enviei, sem pensar muito nas conseqüências. Não imaginava que isso pudesse causar tamanha polêmica. Mesmo pq, é um levantamento feito entre aqueles que escrevem para a revista (outros já foram feitos). Aqueles não são os "20 melhores filmes brasileiros de todos os tempos", são os "20 melhores filmes" segundo a revista Paisá, segundo as pessoas que escrevem nela. Se a lista foi tão polêmica (quem são afinal essas pessoas que votaram?), acho que isso pode ser um indicativo de que é hora de a revista começar a pensar no alcance de sua veiculação e no peso de sua importância.

Sobre o outro assunto (hoje estou boa para dar opiniões). Eu acho que é possível ser critico e realizador ao mesmo tempo. Em alguns momentos, inclusive, eu acho que esses dois fazeres se ajudam. Vcs citaram alguns exemplos bastante representativos de pessoas que conseguiram e conseguem conciliar bem essas duas funções. Eu sei que às vezes é difícil demarcar onde termina o critico e começa o realizador. Talvez o mais problemático da história é o fato de que esse realizador-crítico possui um instrumento a mais (o espaço no veiculo para o qual escreve) em favor de possíveis ganhos para sua "causa", seja ela qual for. Mas acho que as coisas não se resolvem dizendo simplesmente que realizadores não podem ser críticos ou vice-versa. Se fosse assim, teríamos que dizer não a muitas das pessoas da qual admiramos imensamente o trabalho.

Gente, vou ficar por aqui, pq esse e-mail já ficou longo e chato demais. Um beijo a todos! E prometo que não vou sumir taaaanto.



Cesar Zamberlan


42 - Cesar Zamberlan escreveu em 30/7

Galera, depois de um longo trabalho que me impediu de participar mais ativamente da discussão, consegui subir os e-mails na coluna. Estou extremamente contente com o alcance da discussão - até a Liciane que está estudando na Holanda escreveu - e com a maneira informal pela qual a discussão vem sendo tratada. Acho que o "Em Discussão" talvez tenha encontrado um caminho. Bem... a partir de agora (escrevo no dia 30 à 1:22 da manhã), a discussão se torna pública e aberta. Vamos ver que rumo, ela toma. O e-mail da Liciane, que, de certa forma, agrupa os temas e os resume, talvez seja um bom novo caminho. Vejamos...



Márcia Schmidt


43 - Márcia Schmidt escreveu em 31/7

Estive pensando se tinha alguma coisa pra escrever aqui depois de ler todos esses e-mails do pessoal que escreve no site e aí fiquei imaginando: por que eu gosto de ler o que essa gente escreve nesses sites? Qual o meu interesse nesse tipo de discussão - interna e interminável - dos critérios usados por esses "jovens-críticos", "cinéfilos-críticos" ou "cineastas-críticos"?

Bom, concordar ou discordar de críticos e de suas críticas é o que menos importa pra mim, como "leitora-cinéfila". Questionar cotações, listas, então, nem se fala. Ser influenciada pelas opiniões...hum...no meu caso o que realmente me interessa aqui (e em outros sites citados) é ter acesso a algo mais investigativo sobre cinema, já que fico muito nas sensações que os filmes me dão, e os grandes veículos quase que só nos oferecem as cotações. Quando o Cesar falou que seria legal ter mais opiniões no quadro de cotações do cinequanon este ano - que não fossem só dos críticos - achei simpático e democrático e resolvi aceitar. Estamos aí: eu, a Angela, o Elie e o Sérgio. E quase sempre nossas notas para os filmes são as mais diversas, e de vez em quando acontece com vocês, ainda bem. Seria estranhíssimo se isso não acontecesse. A cinética também anda divagando sobre a crítica, parece que surgiu uma necessidade geral de analisar como andam sendo feitas as coisas. Não sei se a discussão interessa ao leitor-médio, mas aos leitores-fiéis, claro.

Abraços.



Fábio Yamaji


44 - Fábio Yamaji escreveu em 31/7

Eu tava pensando sobre esse lance de analisar o papel do crítico e me lembrei de 3 filmes recentes que colocam um crítico na história:

- em "A Dama na Água" tem o crítico de cinema que é consultado pela sua capacidade de interpretação mas que só leva a pistas erradas.

- em "13 Homens e Outro Segredo" tem o crítico que é castigado e manipulado pra que suas impressões sobre o novo hotel de luxo, que está avaliando, sejam desfavoráveis.

- e em "Ratatouille" o crítico em gastronomia (chamado Ego) é temido e é capaz de promover ou destruir um restaurante, mas acaba rendido por um sentimento autêntico.

Não sei que interpretações tirar disso, mas o crítico tá sempre numa posição questionável (quando dele se espera algo esclarecedor) ou numa posição em que é manipulável. E invariavemente cômica, motivo de chacota.

E curiosamente em filmes de diretores que não são exatamente malhados pela crítica (Shyamalan, Soderbergh, Brad Bird). Por quê?



Fernando Watanabe


45 - Fernando Watanabe escerveu em 31/7

Tem tb no "Crime Delicado", onde o crítico é menos caricatural, bem, talvez seja uma caricatura com mais "nuances" e "profundidade psicológica".



Fernando Watanabe


46 - Fernando Watanabe escreveu em 1/8

ah, mas mesmo assim a função da crítica aparece como "inferior" (no caso em oposiçao à criação) e o personagem tb "sai perdendo" ao final.



Marcelo Miranda


47 - Marcelo Miranda escreveu em 1/8

A criação sempre aparece acima da crítica em praticamente todo segmento onde as duas convivem. Acho que é natural porque, para existir crítica, é necessária a criação artística - e a recíproca não é verdadeira. Nesse sentido, a criação ganha status por parte principalmente dos próprios criadores. Mas aí vem a questão: a crítica também não é uma criação? Também não é um processo sofrido de gestação e concepção?

Quanto a filmes que retratam críticos, o maior clássico de todos certamente é "As Sete Máscaras da Morte", do Douglas Hickcox, acho que dos anos 70. Vincent Price faz um ator de teatro malhado pelos críticos. Ele se cansa do "maltrato" e decide matar um a um de seus "algozes" das formas mais aterradores possíveis... Antológico! Podem olhar mais: http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=8543



Érico Fuks


48 - Érico Fuks escreveu em 1/8

Márcia,

Pra mim, a definição de crítico não é "criticar", ou seja, falar mal, meter o pau. É estar num constante e profundo estado de "crise": crise de valores, crise de sensações, etc. Nesse sentido, idéias pré-concebidas e fechadas não têm vez. A gente vê direto alguns "críticos" saírem das cabines com idéias prontas, que serão posteriormente "enviadas" aos leitores, e ponto final. Crítica é fluxo e refluxo de informações. É quebrar conceitos. É mudar pontos de vista. É troca de idéias, de ensinamentos. Muita gente diz "meu texto tá lá", como se isso fosse algo estanque e definitivo. Não é meu processo de concepção de uma crítica. Gostar ou não gostar de um filme, concordar ou não concordar, portanto, é secundário nessa análise.

Essa discussão interna, portanto, e não sei se se trata de uma coincidência ou convergência de análise com a Cinética (nada foi combinado entre nós), também surgiu como conseqüência de um estado crítico. E aí voltamos a refletir sobre um texto do Watanabe, em comemoração ao nosso primeiro aniversário: escrever por quê? Escrever pra quê? Escrever pra quem? Com quem estamos falando? Quais as expectativas do nosso leitor? Existe uma sinergia entre nosso processo produtivo e o resultado final que chega aos receptores? De que forma podemos intensificar esse caminho de duas mãos que a Internet não só oferece, como também estimula? E, viajando mais ainda, onde termina a arte e começa o trabalho crítico? Falar sobre o filme não é reinventar o próprio filme? Tem gente que acha que quem não sabe fazer, fala sobre. Discordo. Nosso papel não é extravasar rancores de cineastas frustrados, mas sim tentar entender de que forma os filmes conversam com o mundo.

Quanto aos leitores-fiéis, agradeço a atenção e a participação. Até conheço alguns. Mas sobre o tal do leitor-médio, não sei se existe não. A gente usa esse termo pra facilitar critérios. Em marketing se usa esse conceito pra facilitar avaliações de resultados de pesquisa e poder usar estratégias de comunicação de massa. Mas o que é o tal do "gosto-médio"? É Duro de Matar em detrimento de Still Life? A meu ver, opinião pessoal, essa definição pode levar a preconceitos. Se eu me preocupar com o leitor-médio na hora de escrever, o resultado nunca sairá totalmente de acordo com minhas intenções, o que não tem nada a ver com meus objetivos no site. O que faz um leitor procurar o Cinequanon e não um outro site mais voltado a resenhas? Não é o fato de abdicarmos do padrão médio de escrita? O próprio Quadro de Cotações existe para justificar as diferenças internas e particulares, justamente para mostrar que não existe o gosto-médio. Assim eu vejo.

Beijos,



Liciane Mamede


49 - Liciane Mamede escreveu em 1/8

Ola, Marcelo,

Eu responderia sim a sua questao. Sim, a crítica, enquanto obra, so pode existir a partir de uma instância criadora (o crítico). E uma boa crítica, como uma boa obra, muitas vezes nasce de um longo e difícil processo. Por mais que haja por parte do crítico um encantamento pelo filme, achar as precisas palavras para "traduzí-lo" é um trabalho minucioso de atualização de uma sensibilidade - e isso exige mais do que pura habilidade e destreza para acontecer.

Por outro lado, como você mesmo citou, o jogo do qual o critico e sua obra participam so existe em função da arte. Como estamos aqui falando de cinema, eu diria então que o cinema é origem e essência que fundamenta esse exercicio. E ao contrário do que o M.Lyra falou em algum momento por aqui, ser crítico nao está ligado a formação universitária. Desculpe Lyra, mas existem outros tipos de formação muito mais relevantes para um crítico. Assim como não há formulas para se analisar um filme, nao há regras gerais para se formar um "crítico". A única regra é que tenha a arte (no caso o cinema) como fundamento de seu trabalho.

beijo a todos liciane

Marcelo Lyra


50 - Marcelo Lyra escreveu em 2/8

Oi Liciane, você entendeu errado o que escrevi. Nunca disse que ser crítico está ligado a formação universitária. Isso seria um absurdo. Disse que Laura e Rogério tem formação acadêmica ligada a cinema. Mas pessoalmente acho que isso nem é o mais importante na formação do crítico, e sim o contato direto com os filmes, fundamental, e a leitura de livros, muito importante. Começo todas as oficinas e work shops de crítica de cinema dizendo que nenhum curso forma críticos. E já começo desmistificando a crítica, apresentando um texto do Truffaut de 1955 chamado "Os Sete Pecados Capitais da Crítica", que termina justamente com a frase "Não dêem tanta importância à crítica". Digo logo que nem eu nem nenhum curso vai formar críticos. Vou, quando muito, dar dicas, mostrar as tendências que existem e apontar caminhos possíveis. Cada um que ache o seu.

Claro, toda a formação é importante. Quanto mais coisa de fora, quanto mais complexa e diversificada for a formação do sujeito, melhor ele irá se relacionar com os filmes. E uma formação acadêmica sobre cinema pode ajudar tanto quanto uma formação filosófica, geográfica, histórica. E por aí vai.

A importância da crítica em relação à arte é quase nenhuma. Onde estão as críticas feitas na época para, por exemplo, "Dom Casmurro", do Machado, de "Guernica" do Picasso?? E onde estão as obras? Algumas críticas até ficam, como a famosa "Paranóia ou Mistificação", do Lobato, mas apenas porque foi uma das coisas mais imbecis que ele escreveu. Posso até imaginar as críticas de "O Globo" se Dom Casmurro fosse lançado hoje. Dariam bonequinho dormindo: "É muito ambivalente, você nunca sabe se a personagem principal traiu ou não o marido".

Ok, há o texto do Roger Ebert sobre Luzes da Cidade, uma das coisas mais lindas que já li. Mas para cada crítica dessas que topei, há duzentas como aquela do Globo que deu bonequinho dormindo para "O Homem Sem Passado".

Nem gosto de me referir à crítica assim de forma genérica. Isso coloca no mesmo escaninho o Inácio Araújo e o cara que deu bonequinho dormindo para o filme do Kaurismaki. Há críticos e críticos. O cara que escreve sobre cultura em geral e também sobre cinema geralmente não é crítico, embora assine como tal. Ele é apenas um jornalista de cultura, tão ou mais metido a besta quanto mais se meter a dizer que, por exemplo, "Baixio das Bestas" naõ precisaria ter cenas tão sadomasoquistas.

Isso que você falou "não há regras gerais para se formar um "critico"", eu não concordo. Há uma regra geral sim. Um crítico se faz vendo filmes. Ele será tão melhor quanto mais sistematizada for essa ida aos filmes, procurando conhecer todos os movimenstos cinematográficos, como nouvelle vague, neo realismo, cinema novo etc.; bem como as escolas cinematográficas soviética, alemã etc. É importante também entender os filmes em relação ao período em que foram feitos, como eles reagem a determinados momentos sociais e econômicos. Capra, por exemplo, não seria o mesmo se não fosse o crack da bolsa. Por isso gostei tanto daquela lista dos cem filmes do blog do Filipe Furtado, a única que já vi levando em conta essa questão.

Quanto a filmes que colocam a questão da crítica, o "Sete Máscaras" é legal, mas muito mais com esse sentido de acerto de contas. "Cidadão Kane" coloca a questão de forma muito mais objetiva, na relação com a cantora amante de Kane. E Em "Separações", Domingos Oliveira tb discute o assunto e é genial a sequência em que o diretor e os atores da peça, que até então vinham malhando os críticos, vão para a porta da banca de jornais, de madrugada, para esperar sair o jornal com a crítica da estréia da peça, síntese dessa relação problemática. Mas o filme definitivo (até o momento, claro, sobre o assunto é "Embriaguez do Sucesso", obra prima com Burt Lancaster fazendo um poderoso colunista e Toni Curtis um parasita. Toda relação de poder, ambição e manipulação da crítica está sintetizada ali.

Por ora é isso, já escrevi demais. Abraços, Marcelo, Marcelo Lyra, claro.



Érico Fuks


51 - Érico Fuks escreveu em 6/8

Lyra, antes de começar a me expor, me tira essa pulga atrás da orelha: por acaso você concorda com o leitor que me detonou no Mil Toques sobre minha inabilidade argumentativa a respeito de Transformers? Num e-mail lá atrás você diz que, quando o cara não é bom de argumento (crítico ou não) leva pau do leitor. Eu, agradecendo a participação do leitor, tenho uma série de restrições quanto àquele comentário, até porque nenhuma observação foi feita quanto ao cerne do meu texto, isso sim algo mais polêmico e, ouso dizer, inédito. Nem sei ao certo se o que vi estava ali no filme. Mas enfim, uma das minhas características é não entregar tudo de bandeja, mastigadinho. Sou pouco didático, de um modo geral. Existem outros sites, informes, imdb's, blogs, etc. que fornecem fichas técnicas e dados mais comuns e convencionais. Eu procuro fazer a pessoa pensar, gastar uns minutinhos a mais pra se construir um raciocínio, concorde ou não.

Mas voltando: houve há meia década atrás um famoso e polêmico debate sobre estética da fome x cosmética da fome, com Ivana Bentes capitaneando o debate e tendo Meirelles como um dos participantes. O ponto de partida foi Cidade de Deus, mas os assuntos decorrentes extrapolaram a visão sobre o filme única e exclusivamente. Às vezes, de uma crítica, saem times de futebol e correntes adversárias, seguidores de uma ou outra doutrina. É raro, mas desses episódios a gente sempre se lembra. O que é legal é que à vezes a crítica não se prende a um filme, mas a uma estética. Talvez a "jovem crítica jovem" esteja mais voltada a esse tipo de olhar.

O Cléber Eduardo fez um excelente texto em lista de discussão (não sei se chegou a publicar na época - ocasião, não a revista semanal) sobre Rocha que Voa, filme de Eryk Rocha. Achei o texto maior que o filme.

Sobre a condição "sine qua non" que determina que um crítico só se aprimora vendo filmes, concordo num campo teórico, embora não vejo essa relação de proporção. Tenho me deparado muito com pessoas que contabilizam filmes vistos, atingindo a casa dos milhares, mas não qualificam seu olhar crítico. Continuam optando pelos mesmos tipos de filme, produzindo os mesmos tipos de comentários, etc. Uma pena. Um erudito também não é necessariamente um crítico. Pra ser crítico, ou lançar um olhar crítico sobre cinema, é preciso também estar aberto, vulnerável, receptivo a novas tendências - escritas ou cinematográficas. E isso acho que independe da formação.

abs Érico



Fernando Watanabe


52 - Fernando Watanabe escreveu em 07/08

Oi de novo pessoal!

MM, acho que a crítica pode ou não ser uma criação; assim como filmes. Qual o fundamento de criar? É se expor e " sair de si", sair nu na rua (cesar, dessa vez não corte, rs). Não importa se a crítica vem de uma inteligência fria ou emocional, o que importa é enxergar a personalidade da pessoa que escreve ao invés de ver um crítico que parece fazer a ponte entre um conhecimento superior e os meros leitores espectadores, numa função muito semelhante a de Jesus.

Concordo com a Márcia, meu objetivo ao ler críticas também é pesquisar, me aprofundar. Mas se vejo a pessoa impressa no texto (o que não significa em hipótese alguma uma crítica "diário íntimo"), sinto que é mais sincero e por isso acredito naquela visão, mesmo não concordando. Coisa distante da criação é o crítico que se esconde e prefere fazer esse papel de intermediário de conhecimento, não se expôs, ninguém irá achá-lo, portanto não é criação.

Mesma coisa com filmes.

Acho que tanto filmes quanto crítica são feitos com auto grau de racionalidade, mas o efeito no receptor tende a ser mais instintivo em filmes, enquanto em críticas os efeitos se limitam ainda à razão. É o que a Márcia diz, que "fica muito na sensação ao ver um filme, e busca críticas para organizar o que sentiu". Então a crítica tem vocação para a razão em sua feitura e efeito, para que o ciclo se complete: razão na feitura do filme, instinto na recepção, razão de novo pela crítica que vai organizar a recepção instintiva.

Mas, de novo, se vejo a pessoa no texto, e tal texto tem qualidades literárias, então a crítica resvala também no efeito irracional e cria-se um afeto, algo próximo à ciação.

viajei, fernando



Marcelo Lyra


53 - Marcelo Lyra escreveu em 08/08

Érico, não concordo com seu leitor, mas em relação ao final, é a segunda ou terceira vez que me criticam supostamente a partir de uma fala minha, sem que essa fala tenha sido corretamente lida. Sou machadiano o suficiente para saber que se a gente acha que todos estão agindo errado, talvez o erro esteja em mim, não nos outros. Li e reli meu texto. Talvez esteja mal escrito, mas eu não disse "um crítico só se aprimora vendo filmes". Fora do contexto fica vago e superficial: o que eu afirmei é a frase inteira, que repito aqui e acrescentaria no final: para se conhecer esses movimentos, é importante ir aos livros: "Um crítico se faz vendo filmes. Ele será tão melhor quanto mais sistematizada for essa ida aos filmes, procurando conhecer todos os movimentos cinematográficos, como nouvelle vague, neo realismo, cinema novo etc.; bem como as escolas cinematográficas soviética, alemã etc. É importante também entender os filmes em relação ao período em que foram feitos, como eles reagem a determinados momentos sociais e econômicos."

Marcelo Lyra



Daniel Caetano


54 - Daniel Caetano escreveu em 10/08

Cesar, grande

A princípio quis ficar quieto nessa discussão sobre o "Conceição" que rolou na Cinequanon. Fiquei bem feliz em ver que você curtiu o filme e achei o seu texto comparando o nosso filme com o do Jorge Furtado bem bacana e já tinha lido o do Cid na época da Mostra de Tiradentes, e também li as cartas dos leitores. Mas acho que não tenho o que dizer, porque afinal de contas quem tem que ter opinião sobre o filme é quem assiste, eu já fiz a minha parte com meus colegas.

Com relação ao que o Bernardo Uzeda escreveu, só gostaria de lembrar uma idéia antiga, que uma vez eu li, de que uma obra (filme, livro) é uma máquina de significados, e que cada um extrai algo seu. É claro que essa extração não é inteiramente livre, mas é uma relação filme-espectador.

Digo isso por conta de quando o Bernardo escreve: "se eu não entendi ou nao gostei das referências simbólicas ultra-complexas do filme (ou até das suas piadas internas lá da universidade) isso é um problema que vem do filme e não de mim...". Eu não acho que o leitor esteja errado (nem acho que eu teria esse direito), mas sugeriria a possibilidade de que isso não se deva apenas a um problema do filme ou a um problema do espectador, mas sim da relação que um estabelece com outro - que é diferente das que outros irão estabelecer com o mesmo filme. O filme é o mesmo e, no entanto, não é o mesmo.

E confesso que sorri quando li o comentário do outro leitor, quando ele diz que "esse jovens" não estão assistindo a "nada de político". Eu acho que o filme tem um aspecto bem político sim, mas paro por aqui, porque não cabe a mim querer impor isso.

Então devo dizer o que realmente me motivou a escrever esta carta: foi o comentário do Fábio no tópico "em discussão". Acho que, se não preciso opinar sobre o filme, posso de todo modo tentar entender as opiniões dos outros. Não duvido que o Fábio esteja certo na perspectiva dele, mas fiquei curioso por um desenvolvimento do ponto de vista dele.

Talvez seja meio bizarro um dos realizadores do filme pedir que um crítico que não gostou desenvolva sua crítica, mas o que acontece é que é bem comum associar nosso filme ao tal Cinema Marginal, mas a verdade é que durante a feitura do projeto isso nunca foi planejado - até porque o Cinema Marginal faz parte de uma época de desencanto e de crise com o país bastante diferente da nossa. Veja bem, não quero dizer com isso que associar o filme aos filmes do Sganzerla ou do Tonacci seja "errado", só quero dizer que não foi algo tão consciente para nós. E confesso que me incomodo um pouco, por parecer que passa a visão de que o filme não dialoga com o seu tempo, ainda que isso tenha sido comentado em algumas das críticas mais legais e positivas.

Como não caberia eu reclamar com alguém que usasse a comparação com o Sganzerla pra elogiar o nosso filme, sugiro ao Fábio que desenvolva isso, que vá ao filme pra exemplificar - até porque os textos positivos falavam de "espírito" ou "evocação", já o Fábio viu "cópia" e "plágio". Nada contra a força das palavras, acho isso legal, mas então imagino que nosso amigo não teria dificuldade em apontar onde, em "Conceição", se pode comprovar esse "plágio".

Se a referência é uma sintonia o Pereio mascarado no "Bang Bang" e o gorila do nosso filme, não cabe nem alegar que nossa referência no caso era só o Kubrick do "2001" - se o espectador viu "Bang Bang", então o filme deixou ver, mesmo que não fosse a intenção.

Mas é só essa sequência de um minuto no filme inteiro que sugeriu o "plágio"? Ou tem mais? Acho que seria interessante desenvolver isso: quais são as evidências em "Conceição" (imagens, falas, cortes, personagens, tramas...) que remetem ao tal cinema "udigrudi"? É um olhar que eu gostaria de entender, até pra descobrir algo que eu não vi.

abração, daniel