Ninho Vazio - Cinema Argentino




Editoria Cinequanon


1 - Ninho Vazio - Cinema Argentino

Nos últimos anos, o cinema argentino fez um nome no Brasil e no mundo, a tal “buena onda”. Jean Claude Bernadet, um dos nomes mais respeitados pensadores sobre o cinema no Brasil, chegou a escrever um artigo polêmico sobre a questão, elogiando esses filmes e indagando porquê os filmes brasileiros não tinham a mesma fluência narrativa que os argentinos.

Alguns rebatem tal onda de elogios aos vizinhos, dizendo que o quê nos chega do cinema argentino é a nata do cinema deles, e que como não assistimos as porcarias, a impressão que fica é falsa e que não se pode qualificar uma cinematografia vendo apenas o que ela produz de melhor.

Tal resposta, no entanto, se tem um fundinho de verdade, cai por terra quando lembramos que dentro de um período de alguns anos, 10 anos talvez, a Argentina nos apresentou nomes como Lucrécia Martel, Pablo Trapero, Lisandro Alonso, Daniel Burman, entre outros, além de diretores novos que nos apresentaram bons primeiros filmes, mas que merecem ainda mais tempo para ver se constróem um carreira sólida.

Dito isso, fica aberta a discussão sobre Ninho Vazio, último filme de Daniel Burman, o mais recente sucesso do cinema argentino por aqui. E também se é válida essa onda de elogios em torno do cinema argentino. Está aberta a discussão.



Elizeu Pimenta (Internauta)


2 - Internauta elogia filme e cinema argentino

O comentário sobre o cinema argentino tem relevância sim. Não vemos só o que de melhor eles produzem, em contraponto produzimos poucas produções realmente boas. Faz merecer elogios um filme como Ninho Vazio. O diretor deste filme nos leva a perceber e sentir quase o mesmo que os personagens, sem que passemos pelos mesmos dilemas. Um bom programa para reflexão e diversão, e ser for Argentino é bom conferir, mesmo que para falar bem.

Fernando Oriente (Cinequanon)


3 - Burman e os “probleminhas de classe média”

A suposta qualidade do recente cinema argentino é um assunto espinhoso. Com algumas belíssimas exceções (longas de Pablo Trapero, Lisandro Alonso e, principalmente, da brilhante Lucrécia Martel), a maioria dos filmes vindos da Argentina que entram em cartaz no Brasil são típicos representantes de um cinema pra lá de suspeito e que se consolida cada vez mais no circuito dito de “arte”. São longas piegas, construídos em cima de elementos estéticos pré-fabricados e que se alimentam da repetição em série de modelos ocos. Mis-en-scene, decupagem, dialética e intensidade dramática praticamente não existem nesses filmes. São obras em que os significantes foram abandonados em detrimento de uma enxurrada de signos vazios que levam direto a significados banais. É um cinema em que o “indivíduo único” (filho pródigo da sociedade de superexposição do Eu idealizado e isento de contextualização social) e seus problemas fúteis ocupam o primeiro plano.

Daniel Burman é o mais conhecido diretor argentino desse tipo de cinema. Seus filmes (pelo menos os que foram exibidos no Brasil) são protótipos da caricatura e da falsificação de sentimentos. Mas de todos esses, “Ninho Vazio” é disparado seu pior trabalho. Todos os personagens que vemos na tela são de uma superficialidade gritante. Suas inter-relações são frouxas e os clichês agridem de tão mal explorados pelo diretor. Um detalhe que torna o longa ainda mais desagradável é a pretensão de Burman em adotar certo tratamento estético e de condução de personagens ao estilo de Woody Allen. A distância entre Allen e o argentino é equivalente a que separa a música sertaneja das composições de Pixinguinha. Woody é um mestre das sutilezas, trabalha em cima de referências e paródias sofisticadas, domina com precisão a mis-en-scene e a condução dos tipos que cria. Burman falsifica e apela constantemente à vulgaridade dos lugares comuns e do sentimentalismo.

Burman se leva a serio, acha que está falando sobre conflitos humanos. Mas o que realmente faz é enrolar e enganar o espectador com o tratamento medíocre que confere aos “probleminhas de classe média” que tanto adora. Seu artificialismo é irritante e por mais que tente, não consegue esconder o quanto é moralista e reacionário. Mediante esse tipo de cinema, que quase sempre tem seus filmes em cartaz no país, resta ao cinéfilo exigente lamentar profundamente o triste fato de “A Mulher Sem Cabeça”, último longa de Lucrécia Martel, não ter tido nenhuma distribuidora brasileira para trazê-lo para nossas salas. Alguma coisa está errada.